Terrence Malick faz 68 anos hoje. Não se sabe se ele nasceu no Illinois ou no Texas.

A sociedade em que vivemos o considera excêntrico por evitar dar entrevistas, deixar-se fotografar ou comparecer a homenagens. Em 40 anos de cinema, escreveu e dirigiu 5 filmes: Badlands (1973), Days of Heaven (1978), The Thin Red Line (1998), The New World (2005) e The Tree of Life (2011), este último premiado com a Palma de Ouro em Cannes.

Consta que foi fazendeiro antes de estudar filosofia. Seu contato com a disciplina inclui: graduaçao em Harvard, pós-graduaçao não-terminada em Oxford; ensino no MIT. A reportagem de O Purgatório encontrou Malick por acaso em uma seção reservada da Biblioteca Nacional de Paris. Malick aceitou de pronto conversar, pedindo apenas que não revelássemos o livro que ele lia no momento do encontro.

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O Purgatório – O senhor é formado em filosofia e tem uma clara familiaridade com a escrita. Por que escolheu o cinema para expressar suas idéias?

Terrence Malick – O cinema tem duas capacidades que me interessam e me convêm. A primeira é que as coisas na tela ganham status diferentes do que têm no mundo. O cinema comporta palavras e ideias, sem necessariamente transformá-las em imagens. O que me interessa no cinema – e essa é a segunda capacidade – é seu poder de conjugação de diferenças. Não faço imagens a partir de palavras nem expresso pensamentos através delas. Não é simplesmente isso que busco fazer. O que busco é criar uma cadeia, um fluxo expressivo que se aproveita da matéria do mundo para tomar forma, adquirir movimento e regular seu próprio tempo. O cinema é meu meio mas meu material é o mundo.

OP – O mundo, do sentido físico ao abstrato: árvores, animais, mas também pensamentos, crenças, sentimentos…

TM – Exatamente.

OP – Concorda com a ideia de que seus filmes funcionam como a busca por trazer a um denominador comum elementos de natureza tão dispares?

TM – Interessa-me construir um ponto de vista a partir do qual eu possa articular diversos elementos, sem necessariamente feri-los em sua subjetividade e natureza. É uma maneira de olhar as coisas que busco, de modo a ostentar suas articulações comuns.

OP – The tree of life é um dos seus filmes menos narrativos. Foi o tema que definiu essa escolha?

TM – Acho que há uma história contada em The Tree Of Life, que é uma história muito mais clara e conhecida do que qualquer outra história que eu já contei. Ao mesmo tempo é uma história tão complexa que não caberia numa narrativa unívoca. O tema entra na forma de narrar pelas escolhas que fiz, pelo material que utilizei. Como falei anteriormente, aliás: meu material é o mundo.

OP – Mas apesar de utilizar imagens de animais, plantas, células e fenomenos da natureza, você usa imagens ficticias também: dinossauros… E as próprias imagens da família são fictícias.

TM – O cinema permite esses deslocamentos, mas não diria simplesmente que a família é um personagem fictício. Para mim, o que define os personagens é menos o tipo de existência que eles têm e mais aquilo que se diz sobre eles.

OP – O modo como se olha — como a câmera olha — para eles.

TM – Précisemment.

OP – Em Days of heaven a narradora diz, sobre o fazendeiro: “Ele era uma boa pessoa. Se você lhe desse uma flor ele a guardaria para sempre”. Uma maneira suscinta e eficiente de construir um personagem em uma frase de 5 segundos!

TM – É o que tento fazer, às vezes. O tempo é importante, mas não um tempo necessariamente curto. Considero que as imagens de Jack, quando criança, em The Tree of Life não são imagens que o definem a cada instante, como um todo, mas imagens que mostram definitivamente um estado de espírito, um modo seu de conectar-se e de reagir ao mundo.

OP – Sua busca é ir além do poder analógico da imagem…

TM – É como disse há pouco: é o que o cinema me permite.

OP – Seus personagens estão constantemente em contato com elementos naturais — a água, o fogo, o verde, a noite. Sobretudo à luz de The Tree of Life, é possivel pensar que, nos outros filmes, esse contato tem algo de originario e ritualístico, uma recriaçao de relações que é também uma inauguração…?

TM – Por que “à luz de The Tree of Life“?

OP – Porque este é um filme intensamente religioso, mas não porque mostra a religiao como solução. A vida, nesse filme, é um fato caótico e ordenado: é imprevisível, mas tem um sentido. Não se pode precisar esse sentido a partir de sua direção, mas da constatação do seu movimento.

TM – Bem. Não é soluçao, primeiro, porque há menos um problema do que uma questão. Há menos uma pergunta do que várias, que são a variação da mesma. Uso o texto religioso como um modo de reelaborar e multiplicar essa pergunta. De certa forma as imagens que uso têm a mesma função – multiplicar, ecoar umas as outras, adicionando sua particularidade sem perturbar a ordem caótica do todo. O que nos leva de volta à sua pergunta anterior, sobre a narrativa cinematográfica. O filme pode ser entendido como uma pergunta – ou uma busca pela forma de narrar o que pretendo narrar, sendo que essa forma é inseparavel da matéria da narração. E que, de certo modo, a narrativa já está feita, dada, só me resta recriá-la a meu modo.

OP – E o que são aquelas imagens de cachoeiras e arvores e edifícios que povoam o filme? Há um apelo à verticalidade…

TM – Não poderia dar minha opinião adequadamente sobre isso sem acabar fazendo outro filme. Mas diria que elas são muitas coisas. Há um apelo à forma e à postura, sim, mas é importante também pensar no movimento que elas descrevem e que o olhar da câmera sugere.

(Pausa longa. O bibliotecário chega para nos expulsar por conta do barulho).

São imagens que são do mundo, mas que são nossas também. São produções do filme, são visões minhas, mas são imagens que estão lá. No fim, é muito mais a maneira como olhamos para as coisas que conta, do que a produção de coisas novas para olhar.

Diego Damasceno escreve hoje, no lugar de Carmezim, que escreveu ontem no lugar de Diego, que hoje está no lugar de Carmezim, que escreveu ontem no lugar de Diego, que hoje está no lugar de Carmezim, ad infinitum. E vice-versa. (Talvez.)

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