Ontem percebi que, à medida em que envelheço, vou me tornando como meu pai, que outro dia defendeu a escola de antigamente porque os alunos eram obrigados a decorar os nomes das capitais de cada país.

Sou pró revoluções do sistema educacional para que a escola seja um ambiente de estímulo à criação, ao questionamento e ao conhecimento, etc, etc, favor assistir a esse vídeo aqui.

Mas confesso que uma parte de mim agradece cotidianamente a minha professora de português da sexta série, que nos fazia conjugar verbos em todos os tempos possíveis e imagináveis na folha de monobloco. Graças a ela, não me ouço perguntando a um amigo se ele “quer que eu pego” aquele lápis no chão. É um orgulho quando se mora por essas bandas.

Graças às dezenas de folhas de monobloco conjugadas eu também tive mais facilidade para aprender a gramática de outras línguas. E o exercício, que assim descrito ganha contornos de tortura chinesa ou clipe do Pink Floyd, nem era tão chato assim, segundo a minha memória afetiva.

Depois da terceira folha, conjugar trazia a segurança de entoar um mantra. Qualquer verbo que chegasse a gente matava no peito e batia para o gol. Quando começaram a aparecer os impessoais, os anômalos, os defectivos, os abundantes, verbo era discussão até para o intervalo. Como se conjugava aquele último? Pra que uma coisa assim existe, se ninguém usa?

Foi quando vim morar em São Paulo que fui forçada a reconhecer a existência do verbo camillar: transitivo, regular, defectivo. Eu já o vivia, é claro, e é exatamente por isso que ele tem esse nome. Mas só tive que pensar sobre ele em uma conversa, quando surgiu a piada sobre o verbo de cada um dos presentes.

Meu verbo é minha ação ou reação recorrente. Aquilo que eu sempre faço, aquilo pelo qual sou conhecida dentro da minha vida e, ocasionalmente, nas vidas de quem está ao meu lado. Tem gente que leticia. Outros gustavam. Outros pedreiam (verbo irregular, portanto), guilhermam, evandram. Eu camillo.

Agora é mais fácil explicar determinados acontecimentos sem tantas palavras. O que aconteceu? Camillei. Estou aqui, camillando, como sempre. Mas um verbo novo sempre me exige uma (ou mais) folha(s) de monobloco mental(is), onde possa aprender a conjugá-los até o fim.

Um autoverbo nunca é tão simples quanto parece. Volta e meia ele tem conjugações ardilosas, radicais imprevistos. Só tentando descobrimos que no pretérito imperfeito do subjuntivo, ele pode não ter terceira pessoa do singular.

Isso sem contar a pilha de significados ocultos e novas definições que só são descobertos com o uso prático. Se o verbo cantar pode ter treze significados, imaginem o meu.

É sempre uma epifania descobrir quando algo se encaixa como definição do seu verbo e poder enxergar as ações voluntárias (caso ele seja transitivo, é claro) que você realiza sempre ou realiza demais. Usar menos o autoverbo também pode ser bom de vez em quando.

E se é pra italocalvinizar com uma gramática invisível, me atrevo a dizer que é esta a ferramenta indispensável para escrever e revisar nossas próprias histórias: um autodicionário que está sempre aguardando novas definições.

camillarv.t.d, por ora, é: 1 – Infligir dano a si mesmo acidentalmente utilizando qualquer objeto ou ectoplasma disponível em um espaço; 2 – Exercer a incapacidade de enxergar mérito em conquistas próprias.

Camilla Costa escreve às quintas-feiras.

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