Depois de pedalar por quase uma hora, chegou suado e supresso numa mansão de jardins conectados com a sala por grandes portas de vidro invisível.

Pensou no engano de seu amigo ao lhe convidar para uma festa “simples” de uma velha conhecida que há muito não dava notícias.

Estava de férias na primavera dinamarquesa e levava camisa de cor imperceptível pelo desbotado do tempo.

A gola relaxada poderia ser um afronto aos colarinhos impecavelmente bem passados de todos os outros convidados.

Traje completo até para o garotinho de dois anos.

Ele tentou disfarçar ao, escondido, lavar o rosto no banheiro.

Um ânimo plebeu se manifestou em seu sorriso contornado por uma costeleta de linhas indefinidas pela barba vencida.

– A desfrutar, malandro!

Sacou uma taça de espumante enquanto fazia uma piada para o garçom e não pôde evitar a paralisia ao ver descer as escadas uma garota de olhos vivos e cabelo encaracolado.

– Isso tá parecendo filme de comédia barata, pensou.

Mas não perdeu o encanto: para ele pouco importava viver um roteiro batido.

Os olhos dela brilharam e já não ouvia a voz da mãe apresentar-lhe pela enésima vez àquela amiga sem graça.

Sua aventura desta noite já estava traçada.

Vítor Rocha escreve aos sábados

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