Primeiro, uma mancha mais escura no gesso do teto da sala. Três centímetros de diâmetro. Os afazeres domésticos, a rotina casa-trânsito-trabalho-fastfood-trabalho-trânsito-casa, a dor na coluna não permitiam olhar o teto, avaliar os detalhes da residência, viver o apartamento. Era no automático que Antoni entrava e saía do quarto e sala nos arredores do Imbuí, bairro cuja gênese remonta à grande massa de trabalhadores do Pólo Petroquímico de Camaçari, município da Região Metropolitana de Salvador.

Com duas semanas, a mancha ganhara corpo. Sete centímetros de diâmetro. A água (seria água?), no entanto, não brotara ainda pra dentro de casa. O gesso, teimoso, absorvia, engolia o que vinha de cima, da vizinhança, empapava-se de líquido, mas não cedia. Antoni não via, a cabeça enfiada no pescoço, só pra constar. Doze passos até o banheiro, oito até a cozinha, sete e um pouquinho até o quarto. Sentado no sofá, absorto na TV.

Entre uma colherada de feijão enlatado e um gole de suco de caju encaixotado, Antoni viu a primeiríssima gota vencer a barreira do gesso e cortar o espaço entre ele e a tela da TV. Pensou: daqui a pouco vai molhar o chão todo. Pra que a gota ganhasse peso e a gravidade a desprendesse do teto ao chão era preciso um bom tempo, coisa de quinze minutos. Antoni pensou de novo: vida seca essa minha, vida seca. Riu-se, lembrou de Graciliano. Esperou a quinta gota. A sexta. Levantou, colocou a mochila nas costas e saiu, fazendo muxoxo para a goteira.

De tardinha, de volta, rodou a chave na fechadura, maldizendo-se por ter ouvido as lamúrias da subsíndica, Dona Ferreririnha, uma senhora, meia-idade, quase engasgada de tanta maledicência. Quem diria que era possível guardar tanto palavrão num corpo de velha!, Antoni pensou. Dona Ferreirinha reclamava da goteira no salão de festa, da goteira no hall social, da goteira em frente ao elevador de serviço.

Ah, a goteira… Ironizou: enooooooorme problema, Dona Ferreirinha. Abriu a porta, o chão da sala seco. Esperou, dez segundos, nova gota iniciava o molhaceiro do piso. Como era possível? Não tinha dado tempo de secar. A goteira tinha empatia com Antoni: só começava quando ele
pisava em casa.

Vida seca essa minha, resmungou.

Depositou na mesa a mochila carregada de escrituras, coisas de cartório (aquele inferno!), pagamentos, documentos autenticados, firmas reconhecidas. Olhou de soslaio: a goteira se intensificara. Antes de comer o sanduíche de queijo amarelo e mortadela com pedaços de azeitona, abriu a porta, checou os locais onde Dona Ferreirinha acusara a incidência de goteiras e nada viu. Voltou pra o apartamento. Tirou a blusa, deitou no chão, debaixo da mancha já de mais de dez centímetros no gesso do teto. A gota se segurou, sacaneou um bocado antes de cair, chocar-se contra o peito de Antoni.

Deitado, o peito encharcado aos poucos, encheu a boca de gosto e gritou: – Dona Ferreirinha, não quero que consertem a minha goteira não!

Vida seca essa minha. Vida seca dos infernos.

Carmezim escreve às quartas

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