por Pitacus Gramorronius*, especial para O Purgatório

Foi Jânio Quadros quem, invejoso de Londres, inventou de trazer para São Paulo os famosos ônibus Fofão – aqueles vermelhos, de dois andares. Isso nos anos 80. Nos 90, a esperança de redenção do transporte público nacional foi invejada da Alemanha: batizada de Fura-Fila, era a primeira versão do aerotrem, “alegria da turma que anda de ônibus”, carro-chefe da campanha eleitoral de Celso Pitta à prefeitura – empurrado pra cima do povo, diga-se de passagem, com uma forcinha das maquetes do marketing de Duda Mendonça.

Nada disso porém atendeu a contento as necessidades da maior metrópole brasileira. Pois – era óbvio! – a solução do novo milênio para a mobilidade urbana tupiniquim jamais poderia ter sido parida nas ruas ou nas montanhas brancas de neve da Europa. Inspirada na colombiana Medellín, a solução definitiva para as mazelas de nosso trânsito já completa quatro meses de testes num conjunto de favelas da zona norte do Rio (região notabilizada por seus bailes funk, pelo assassínio de Tim Lopes, pela pacificação reality-televisiva de 2010). Não é um pássaro, não é um avião: é um teleférico, sucesso entre a criançada do complexo do Alemão.

Pesquisas comprovam que a implantação generalizada do teleférico no país sempre foi defendida por nove em cada dez homens e mulheres de até 10 anos de idade – percentual que cresce entre os que tiveram a chance de visitar localidades turísticas dotadas do equipamento, como Poços de Caldas (MG), Campos do Jordão (SP) e outras. Mas ninguém dava atenção aos apelos, que, pasmem!, eram considerados “infantis”. Santa ingenuidade: bastaram os testes do teleférico no Alemão, e a fantasia transformou-se em aposta como meio de transporte! Não duvide: será encampada na capital paulista; não tarda, acaba pegando no país todo. Irá sobrepujar as promessas da propaganda eleitoral, como uma alternativa eficaz a congestionamentos e enchentes. Rodízio, dia sem carro? Vá de teleférico. Greve de ônibus, pane no metrô? Vá de teleférico.

Ir ao trabalho ou à escola dentro de uma gôndola é uma experiência lúdica. Torna a segunda-feira do trabalhador, do estudante, muito parecida com a sexta de um congressista. Ou com a quarta de um Martinho da Vila. Nem terminou a tarde de domingo, e a molecada já não vê a hora de ir para a escola na manhã seguinte, na ânsia do caminho animado: assiduidade de fazer inveja a qualquer meta de freqüência escolar de programa social. Idosos também se assanham para marcar logo a consulta no posto de saúde, ainda que com uma pontinha de medo daquele troço que voa pendurado num cabo.

Basta um rápido comparativo para mostrar as inquestionáveis vantagens do teleférico. O metrô pode até ser rápido, mas nada é mais desagradável do que ficar enfurnado debaixo da terra, num vagão apertado, com as partes baixas de algum passageiro grudadas na face de quem deu a sorte de conseguir um assento. No ônibus, a paisagem melhora; mas a condição de aperto, não. No teleférico do Alemão, ninguém precisa ser encoxado – sobra respeito. Oito viajam sentados, dois em pé. Não passa disso, dada a ameaça de esbarrar na caixa d´água do barraco logo à frente. O cidadão pega um trem na estação Central do Brasil, desce em Bonsucesso e, de lá, corre pra alcançar uma das 152 gôndolas, que passam com intervalos de segundos. O percurso completo dura 16 minutos, entre seis estações – algumas com nomes poéticos, como “Adeus” e “Alvorada”.

No sobrevoo de 3,5 km pela favela, passa-se ao lado de lajes improvisadas e bem pertinho do arco-íris de roupas penduradas no varal coletivo que morre lá detrás do horizonte. Dá pra ter uma vista privilegiada da pacata rotina local: do marmanjo de uns 45 anos empinando pipa numa tarde de terça-feira ao juvenil jogando bilhar na saída da escola. À parte as brincadeiras, fato é que até 30 mil pessoas por dia se livram do trajeto terrestre de mais de uma hora pelas tortuosas vielas do complexo (ou meia hora, se a opção for um mototáxi sem capacete, sem mata-cachorro nem touca higiênica).

Balançar, balança; mas não cai. É coisa de elite, feito a ponte Rio-Niterói que a grã-finagem pega pra passar um final de semana em Búzios. É bem verdade que balões de São João e papagaios sustentados por cerol maculam a imagem de modernidade inspirada pelo novo equipamento. Mas lá em cima, a coisa é emocionante, mais do que qualquer bondinho do Pão de Açúcar.

Além de divertida, a viagem pode ainda ser antropológica para forasteiros. Por R$ 1 cada viagem, um visitante pode espiar de perto a chamada “estética da violência” e até se imaginar preso na cabinezinha transparente, dependurado em meio a um tiroteio pela disputa do controle da comunidade. Confesso que procurei, mas não vi nenhum AR-15 no sobrevôo. Vi no máximo uma ou outra troca de empurrões – nada de dar inveja ao que se vê em qualquer balada da Oscar Freire paulistana. Inveja, aliás, é capaz que mate mais.

*avesso a todo e qualquer proselitismo, o repórter Pitacus Gramorronius é o convidado especial deste domingo. Ricardo Sangiovanni volta na semana que vem.

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