Até agora há pouco, pouco se sabia sobre essa pessoa. Não sei agora em que pé estamos.

O que pode ter desencadeado seu processo de estranhamento frente ao mundo? Desencantamento com tudo, uma viagem pelo Brasil ou a descoberta da distância caprichosa entre a filosofia e a vida… Enfim: até agora, tudo que há são apenas rumores.

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Esse assunto, aliás, torna-se mais fascinante quando lembramos de quantas pessoas estranhas, depois de mortas, despertaram bem mais interesse justamente por sua estranheza.

As obras de um escritor, desde que estranho e morto, tornam-se ainda mais suculentas. É como se ele levasse consigo não propriamente as chaves da história, mas a localização de certas portas secretas que, se poucos chegam a saber que existem, talvez nem o próprio escritor soubesse onde vão dar.

Já no caso dos pintores, o leve arrepio que dá quando damos as costas para um quadro capaz de nos fazer congelar (e que secretamente se movimenta, animado por nosso interesse conspícuo), este correr de ar pela espinha fica uma nota mais frio quando pensamos que há algo ali dentro que sorri para nós, mas que, se não tivermos olhos perspicazes o suficiente, rirá de nós. Segredo plantado por seu autor. Se for então uma figura humana representada, somos capazes de jurar!, mesmo sem coragem de confessar, que ela moveu os olhos, como num episódio de Scooby-Doo.

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Que o mistério colore a existência, disso estou convencido. Mas ele vai além da arte, existe na própria vida – é o que se costuma chamar estranheza: comer a mesma comida todos os dias, nunca dar entrevista ou sair em fotos, faltar a todo e qualquer compromisso, cometer suicídio.

Sobre aquela pessoa estranha lá de cima, de quem pouco se sabe, há quem creia ser João Gilberto, Clarice Lispector, Terrence Malick ou Charles Foster Kane. Às vezes desconfio de que possa sê-la eu mesmo. Espero estar enganado.

Diego Damasceno escreve às terças

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