Ele chegou a pensar ser uma radiola após ela ter acusado aquele seu hábito de levantar da cama sempre tagarelando uma música. Todo santo dia.

Nunca antes se dera conta de que, antes de voltar completamente a si após uma noite de sono, era possuído por um ânimo que variava a depender da canção que o acompanhava do instante em que pulava da cama até quase quase metade de cada manhã.

Mas que mal havia? Era somente um sujeito que cantava ao acordar. E os dias nos quais mais cantarolava eram bem aqueles em que se sentia mais relaxado: era quando a existência lhe parecia etérea e, por isso mesmo, bem pouco perceptível.

E quanto mais leve se sentia, menor era o custo, menor o trabalho físico-emocional de simplesmente fazer-se existir.

E então, despertado para o porquê de cantar – para o porquê de existir – , ele parou um pouco, notou que o coração palpitava, e voltou a sussurrar a canção.

They ask me how I knew, my true Love was true…

Justo aquela, cuja letra pensava já nem mais lembrar. Tanto tempo depois, novamente aquela.

Vítor Rocha escreve aos sábados
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