“El País, por favor”, digo, estendo o braço, e deposito 2,5 euros na mão em formato de concha da senhora de cabelo bem curto e grisalho. Ela me dá o jornal enrolado, me olha com certa ternura com seus olhos castanhos que estão detrás dos óculos com detalhes vermelhos, e me diz “até logo”.

É domingo, é quase meio dia, faz sol (mas a temperatura é agradável) e não há nenhuma nuvem no céu. Em frente à banca, há uma praça impecavelmente limpa e cuidada onde os velhinhos se sentam para ver a vida passar. Escolho um banco e antes de abrir o jornal assisto a um grupo de moças desfilar pela calçada. São jovens, lindas, usam saias curtas e chinelos e distribuem sorrisos entre si e para quem estiver pela frente.

Pego o jornal e, ainda antes de abri-lo, Alphonse Kenyi me olha fixamente e me faz entender que nem todo mundo tem uma praça cheia de árvores e de velhinhos para se sentar e admirar as moças que passam.

É impossível, pelo menos para mim, descrever o que a mirada do garoto transmite, mas é de uma tristeza que chega a embrulhar o estômago. É mais, é de desesperança, de vazio. São os olhos de alguém que aos 15 anos não tem nenhum sonho.

Sentado de cócoras, com os braços cruzados sobre os joelhos e com um argola presa nos pés, Alphonse estampa a capa do El País. Ele está em uma prisão no Sudão do Sul acusado de fazer parte de um grupo de matadores e espera para ser morto na forca.

A reportagem sobre o garoto que aguarda a morte é de Miguel Calatayud e a foto, que deve ter nublado o domingo de sol de milhares de espanhóis, é de Fernando Moleres.

O repórter nos conta a a realidade de um desses tantos países da África que eu só conheço de ouvir falar. Guerras, falta de oportunidade de trabalho e das mínimas condições dignas de vida, Polícia violenta e mal preparada, presídios que são depósitos de seres humanos, história que já li muitas vezes. Mas os olhar de Alphonse me diz muito mais do que isso.

O garoto está preso há quase dois anos. Supostamente cometeu o crime aos 14 anos – nega que o tenha feito e acusa a polícia de tortura-lo para que confessasse, o que não fez. Se tiver sorte, terá a condenação à forca revista pelo tribunal supremo. Caso contrário, será medido, pesado e posteriormente colocado na forca. Se tiver muito azar, sua cabeça será arrancada do corpo – às vezes acontece. Nestes casos, os encarregados pela execução vão presos, porque foram incompetentes.

Aqui está a matéria na íntegra, mas quem não tiver tempo tudo bem, basta ver a foto de Alphonse para entender quase tudo o que está escrito.

Foto: Fernando Moreles/El País

Ricardo Viel escreve às segundas

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