Minha lista de razões para ter abdicado do carro próprio é sortida. Há nela um pouco de ideologia ambientalista; a sorte de trabalhar em casa; o pragmatismo da caminhada nos momentos mais caóticos do trânsito; e, claro, as histórias de buzu. Todo mundo sabe, o nosso transporte público está longe de ser perfeito. Às vezes, acho até que falta muita melhora para ele poder ser taxado de imperfeito. Porém o que lhe falta em estrutura sobra-lhe em riqueza humana. Um buzu é um tesouro para quem gosta de observar a vida alheia; para quem, como eu, ganha o acarajé de cada dia inventando (ou transcrevendo) histórias. Basta abrir mão dos fones de ouvido e evitar o estresse contaminador das horas de pico, para comprová-lo.

Uma das coisas que muito me impressiona neste ambiente é o discurso dos baleiros. Eu não consigo imaginar o sindicato dos baleiros organizando um congresso para se chegar a um texto padrão, a ser adotado por todos os membros. Contudo o efeito mimetizador, sozinho, não dá conta de explicar como, de repente, a frase de entrada de todo vendedor de guloseimas passou a ser: “Olha aí, pessoal, chegou o passatempo da sua viagem! É o passatempo da sua viagem!”

Nem só de performances calculadas faz-se a graça das histórias de buzão. Os passageiros que chamam atenção sem querer são de fato o grande trunfo. Até hoje não me esqueço de Genivaldo, que é bancário e que, embora eu não o conheça, julgo nunca ter sido tão mal falado na vida quanto na vez em que sua namorada, sentada atrás de mim e conversando com uma amiga ao telefone, narrou-nos o cúmulo da sovinice genivaldiana: ir embora do aniversário dela porque achou o couvert do barzinho caro, deixando-a sozinha com os amigos. “E quando eu fui até o carro, tentar convencê-lo a ficar, ele nem pra me dar um beijo na boca. Um beijo no rosto, Janaína! Genivaldo me beijou no rosto!”

É raro, porém, ter a oportunidade de ouvir narrativa tão completa assim. Insólito dos insólitos, eis que apreciação ordinária da vida passageira assemelha-se à degustação da haute cuisine: é preciso contentar o paladar da imaginação com as pequeninas doses. Por exemplo: estava eu prestes a chegar a meu ponto, dia desses, quando escuto um trecho de conversa entre duas senhoras sentadas na primeira fila, nos assentos especiais. Deviam estar falando de violência, porque, no curto tempo que passei de pé ao seu lado pude ouvir:

— Aí eu cheguei em casa e joguei todas as facas de cabo branco fora! Não posso ver uma faca de cabo branco, que lembro daquele homem!

Que analista freudiano de botequim, que escritor sem inspiração não vê aí a ponta do iceberg de um perfil psicológico para se deliciar por horas e horas? Um dia eu ainda escrevo um romance — Olha a faca! — a partir desta cena: uma mulher chegando em casa e livrando-se das facas de cabo branco. Por quê? Aguardem para ler. Que thriller será! Obrigado, Doron R1.

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Breno Fernandes escreve às terças

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