Você está num funeral. Ouve o choro das pessoas ao seu redor e percebe que está suando. É que a dor coletiva é quente e não fria e nunca fresca. De repente se lembra que não molha as plantas há uma semana e que elas também deve estar morrendo. Começa a chorar também.

Você está no sofá, diante da TV. A parede está marcada de jornais provisoriamente nos lugares dos quadros que você precisa pendurar e você ainda não se acostumou. A casa de repente parece definitiva. Talvez seja melhor deixar os jornais.

Você está no metrô. O vagão está quase vazio, mas as poucas pessoas nele estão sentadas juntas. Uma senhora olha para você e, em seguida, desvia o olhar. Ela começa a coçar a perna direita e o barulho das unhas na pele parece preencher todo o vagão.

Você está na cama e faltam 3 minutos para dormir. Um barulho de água sendo bombeada começa a aparecer dentro do seu crânio. Da direita para a esquerda, da direita para a esquerda. O sono só chega uma hora depois.

Você está na frente da sala de aula. Mas percebe que o embrulho no estômago passou e começa a falar. Está tudo bem.

Você está na sua rua à noite e cumprimenta o segurança do prédio vizinho. Se sente bem por tê-lo olhado nos olhos para falar com ele.

Você está no banheiro do trabalho. Depois de lavar as mãos, fecha a tampa do vaso, senta e marca no relógio: dez minutos para dormir.

Você está em casa. São 4 e meia da manhã e dá tempo de comer alguma coisa antes de deitar. No meio da refeição, os pássaros diurnos começam a aparecer e você acelera, para tentar enganá-los. Quem sabe acordar meio cedo amanhã.

Você está num funeral. O caixão acaba de ser enterrado. Vem um alívio.

Camilla Costa escreve aos sábados.