A mãe o olhava com medo de que tivesse herdado sua loucura. Ficava vigiando seu rosto para garantir que a tristeza nunca se excedesse, para que pudesse aparar com sopa de verdura qualquer gigante desespero.

Botava a mão na sua cabeça enquanto dormia, rezando para que acordasse bom. Às vezes ele reparava e passava a mão no cabelo numa coceira imaginária.

A mãe ainda não via anormalidades, mas preferia a prevenção.

Ia a igreja pedir pelo menino e desde seus cinco anos fez promessas para mais de um santo para que fosse são. Comprometer-se com o divino sem que as pessoas soubessem que eram elas que estavam devendo era um costume seu já conhecido.

Pagaria crescido indo a quase dezena de santuários distantes por meios custosos. Joelhos, escadarias.

Depois pensou se o melhor não era ter pedido por algo que fosse mais que não enlouquecer. Um caminho, talvez. Mas certas coisas não podem ser desfeitas.

 

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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