Uma amiga que estuda russo me contou que não se faz uso de artigos nessa língua. Como pode?, quis saber eu. Há uma coisa que eu quero te dizer… Não, você ouviria: eu quero te dizer sobre… Na lata. Sem tergiversações.

Sinceramente, eu não conseguiria sobreviver em uma língua sem o artigo indefinido. Nem me venham dizer que eu exagero, que ainda me sobrariam os pronomes indefinidos e que eles estariam de bom tamanho. Por favor. Não quero alguns tantos nomes para substituir o nome daquilo que tenho por impreciso. Quero indefinir diretamente, seja um assunto qualquer, seja um problema que enfrento, um relacionamento em que me envolvi — uma vida inteira, se assim o desejar.

Se a própria vida é, no fim das contas, um grande imprevisto, por que se esquivar das incertezas com uma língua que ofereça dez sentidos para a vida até, mas que sempre vai te obrigar a ser exato, inclusive na incerteza (sobre…)? Se cada um de nós não contemos a vida, mas uma vida somente, numeral e também indefinida, por que eu abriria mão de meu um, de minha uma?

Acho fantástico que cometamos mesmo a desnecessidade de utilizar o artigo indefinido em construções nas quais esse é descartável em português brasileiro. Umas coisas que poderiam ser ditas sem ele ganham o charme literário da vaguidão quando o indefinido se faz presente. Se porventura isso nos impedir de ter seu revés — a precisão de um Dostoievski, de um Tchecov (Tcharrav, em bom russo, se não me engano), e tudo que vem a reboque dessa —, paciência. Não se pode ter tudo. Sigamos como melhor sabemos. Indefinidos desde o princípio.

Uma máxima machadiana afirma que, atrás de toda ação, há sempre uma intenção. Então está tudo bem: não estamos tateando em trevas totais. Há uma intenção sempre.

Que intenção?

Eis o vulto da mágica.

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Breno Fernandes escreve às terças

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