Pedro chega chorando para a professora.

– Não sou falso nada!

– É sim, você é o falso sim. O verdadeiro é o outro Pedro. Você é o F-A-L-S-O – repisa Gilmar, seu coleguinha.

– Sou falso nada! – repete Pedro, e chora mais.

A professora pergunta o porquê da polêmica.

– Ele é o falso porque, quando ele chegou aqui na escola, já tinha um Pedro antes. Quem chega na escola antes é o verdadeiro. O que chega depois fica sendo o falso. Eu mesmo, sou o Gilmar verdadeiro.

***

Outros dois meninos desenham.

– Esse lápis aqui, é que cor?

– É cor-de-pele.

– N’é nada!

– É sim!

E vão tirar a dúvida com a professora.

– Esse aqui é o cor-de-pele, n’é? – pergunta um.

– É sim – confirma a professora.

– Mas cor-de-pele não é esse outro aqui? – pergunta o outro.

– Esse aí também é cor-de-pele. Os dois são cor-de-pele, e além desses existem mais vários cor-de-pele diferentes.

Desfaz-se a querela. Os lápis em questão eram um rosa clarinho, e o outro, aquele amarelinho esmaecido. Os dois meninos eram negros.

***

O pai, engravatado, enquanto espera o filho na porta da escola, compra um saco de pipocas. Leva a boca do saco diretamente à sua, despejando as pipocas de cima para baixo. De dentro da escola, uma garotinha o flagra.

– Hei! – grita. Você tá BEBENDO a pipoca! Não pode beber a pipoca não, pipoca não é de beber! É de comer, assim, ó – e ilustra – , com a mãozinha.

O homem estacou. Jamais tornou a beber pipoca de novo na vida.

Ricardo Sangiovanni escreve (as histórias que Fernanda conta) aos domingos

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