Tentei pegar com o celular, mas ele perdeu, esse celular perde tudo. Foi o tempo de abrir a bolsa, pegar o aparelho, botar o código, achar a câmera, mudar pra o modo vídeo e começar a gravar que a cena toda mudou e já não tinha mais tanta graça.

Me olharam, apesar do meu esforço pra não atrapalhar o tráfego, mas é São Paulo e as pessoas estão acostumadas a ver gente perdendo tempo pra registrar coisas sem sentido como buraco de calçada em formato de coração, rabisco de rua ou gente no metrô. Fazer o quê?

Mas é que era meio bonito – se você concordar em só agora não considerar o mafuá do transporte público e a dificuldade na vida das pessoas e tudo o mais –  a multidão descendo em caracol até o fundo daquele buraco de concreto iluminado e saindo da escada rolante de um lado e dando a volta e descendo de outro diligentemente até o metrô. Era meio bonito.

Até porque se isso não for meio bonito, nem por segundos às 20h de uma sexta-feira, era melhor não viver aqui.

Só sei que o vídeo ficou ruim e ninguém mais viu. E depois, às quatro da manhã, uns pássaros da rua quebraram o silêncio do bairro e começaram a cantar e a coisa foi se espalhando até só se poder ouvir isso.

Botei o celular pra gravar, mas ele entendeu que era tudo silêncio da madrugada. E não era silêncio, era um barulho emocionante e assustador.

Camilla Costa escreve aos sábados.

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