por Carla Bittencourt

Num desses bate-papos infinitos em caixas azuis de gtalk, chegamos à abstração da viagem no tempo. Encontrar com a gente mesmo, lá no comecinho de tudo, e depois, no futuro. Borges sentado no banco, aliás, McFly no seu DeLorean DMC-12.

Ignorando as explicações sobre o buraco de minhoca, buzinamos na kitnet da estagiária. Ela era tão espontânea, a bichinha. Chamou a gente para entrar, fez miojo de carne e colocou duas tacinhas geladas de Chalise em nossas mãos. Fumamos Derby, a menina jurando que uma visita inesperada tinha levado o último retalho de Marlboro Light.

Eles se olharam cúmplices, dividindo o que eu sentia, intuindo a pergunta feita tão depois. “Você é feliz?”. A edição colegial de Laços de Família se perderia na próxima mudança. Pensei em contar o que foi feito de Clarice com o Facebook, mas desisti. “Vê se guarda as anotações de sua amiga sobre essas genialidades, então”. Também não disse.

Chegamos na Ilha de carro e eles quiseram discutir a ponte, o velho estava imbatível em suas percepções sobre o espaço. Eu ainda tinha 33 anos e vontade de que aquele senhor barbudo me levasse em Maresia. “Maçambê não virou patrimônio cultural”, brincou ele, “mas continua uma delícia com limão fresco espremido”. Me deu um beijo com gosto de peixe, rimos dele e da gente. Mentira, rimos foi juntos.

Acaba em algum ponto misturado entre noventa e dois mil e não sei quantos, quando éramos quatro, a euforia tão perto da saudade. Que rapaz bonito. A senhora parecia impossivelmente serena, o cabelo de algodão e uma certa bossa, coisa fina. Foi ela quem reparou minha vida suspensa e cochichou no meu ouvido enquanto eles dormiam, alheios:

“Passa mais rápido do que aquela montanha russa da Ferrari que armaram nos Emirados Árabes, filha. Aproveite”.

Carla Bittencourt é a convidada especial desta sexta

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