Galvão, carinho, você não se lembrará de minha companhia, eu sei. Somente mais um trabalhinho para você, eu sei. Um sábado à noite qualquer, uma madrugada de sábado à noite qualquer. Tudo bem, carinho, é um direito seu me esquecer. Mas, por favor, não me recrimine por discordar: se você prefere ignorar a minha existência, eu não posso – eu não posso, e nem devo, apagar de minha memória as nossas horas juntos.

Você estava distante, não aparecia há semanas – desde a nossa tarde no Maracanã, se me recordo bem –, e me pareceu diferente, é verdade. Os mesmos gritos sem razão, os mesmos bordões, os velhos cacoetes inabaláveis. O ufanismo de sempre, é claro. Você não vive sem eles, carinho. Mas mais comedido, não foi?, você perguntava ao invés de afirmar, esperava ao invés de atropelar as palavras dos outros, brincava ao invés de reclamar. Por um instante cheguei a sentir falta do seu antigo Eu. Senti um, digamos, estranhamento. Mas um instantezinho só, carinho, não se irrite. Porque logo sua robusta voz estava de volta ao pé do meu ouvido, você berrava, arfava, verdadeiramente se esgoelava em altíssimo som para descrever o sangue e a inépcia do tal do Zumbi Coreano, que, em imagens sem qualidade, apanhava desconsolado no maligno telão armado no Restaurante Incômodo, este negociante de alimentos construído sabe a Prefeitura de Lauro de Freitas porque parede-a-parede com uma área residencial, esta casa de shows informal cuja insistência em anunciar para a rua inteira a sua programação noturna é notória.

Veja bem, Galvão, eu sou uma pessoa muito, muitíssimo compreensiva. Sou paciente, carinhoso, você bem sabe. Escuto a sua voz há anos e não te troco por Milton Leite nenhum. Tampouco abomino o UFC – até gosto, embora lamente a profunda falta de técnica dos lutadores, que mal conhecem o conselho da máxima eficiência com o mínimo de esforço, como ensinou Jigoro Kano. Mas foi difícil, Galvão. Eu estava exausto e você não respeitou o meu descanso. Eu queria dormir e você nem se lembrou das minhas oito horas de sono. Eu queria somente minha namorada ao meu lado, de jeito nenhum um ménage (você bem sabe como prefiro te encontrar sozinho). É pedir demais?

Não, não é pedir demais, Galvão, pois o que peço é apenas para que você, o Restaurante Incômodo e a Plateia Sedenta por Sangue respeitem a porcaria da Lei do Silêncio, se é que ela ainda é válida na Bahia. Mas você gosta de gritar, não é, Galvão? Você adora ter sua voz em um milhão de decibéis. E o Restaurante Incômodo também, porque cada grito seu é uma nova senha digitada na máquina da Cielo, então os garçons aumentam o volume na esperança de que ninguém perceba a artimanha, então vocês estouram a caixa de som na esperança de vender mais, não é, Galvão?

É uma carência sua, eu sei. É uma carência do comércio da região, eu sei. Infelizmente, carinho, não posso fazer absolutamente nada por vocês. Eu quero dormir em paz, Galvão. E não posso, e nem devo, ser obrigado a ouvir sua voz em um sábado à noite como se você estivesse deitado ao meu lado na hora de dormir. Até porque, Galvão, se eu dormir contigo, vou acabar sonhando com o Arnaldo, e quem em sã consciência é que quer sonhar com o Arnaldo, Galvão?

Davi Boaventura reclama do Restaurante Incômodo, quinzenalmente, às segundas-feiras.

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