Sou um tipo ranzinza, pouco novidadeiro, é verdade; e é justamente por isso que cuido de redobrar no espírito a dose de uma antiga precaução: a de não desgostar de novidade nenhuma, a priori, apenas por tratar-se de coisa ou fato novo.

Porém que não me venha abusar da boa vontade esse pessoal que “inventa”, como se novidade fosse, alheias invenções do arco da velha, inventadas alhures, antanho, distante daqui. Descabelo-me mais ainda quando a invenção copiada, a original, já deu provas de sua redonda ineficiência – e, mesmo assim, é replicada.

O caso concreto em questão: a fabulosa “Faixa Solidária”, criada em Salvador, Bahia, Brasil, na quarta-feira passada. Foi o seguinte: a intelligentsia transporteira da prefeitura municipal netocarlista resolveu separar, em reduzidíssima porção da orla da cidade, meia pista de quem vai para ser usada por quem vem, desde que quem vem esteja dirigindo junto, no carro, com mais alguém.

A aposta, dizem, é que, a partir dessa iniciativa genial, desencadeie-se uma doce onda de solidariedade – tema, aliás, da Campanha da Fraternidade de mil novecentos e não-sei-quantos, não se esqueçam, irmãos em Cristo. Nobre sentimento que, espera-se, será decisivo para reduzir a quantidade de carros nas ruas de nossa urbe rude; sentimento que nos conduzirá, com fé, à vitória final prometida sobre esse terrível, esse dito adventício mal do século que é o engarrafamento.

Perfeito. Só que esqueceram de avisar aos baianos (ao menos aos que, como eu, passam de vez em quando o olho pelos jornais para saber o que está para acontecer na cidade) que a faixa solidária é uma artimanha já tentada em uma outra cidadezinha brasileira, uma cidadezinha acanhada e desconhecida, da qual quase nunca se ouve falar – talvez por isso ninguém tenha se lembrado dela – chamada São Paulo.

Foi no final dos anos 90 – acertou quem disse 1997 – e foi implantada não em uma, mas em oito vias movimentadas da cidade, coisa de 12 quilômetros, na soma. Começou reservada para carros com pelo menos três pessoas. Mas aí, vista a baixa adesão, liberaram para carros com duas pessoas. Passaram-se cinco anos, os engarrafamentos seguiram aumentando, e a quantidade de carros saindo pelo ladrão. Cadê solidariedade? Ora, amigo leitor, aí não teve solidariedade certa: nem bem 2002 tinha chegado à metade, a intelligentsia transporteira local (petista, nesse caso; intelligentsia não tem partido) não aguentou e resolveu liberar as tais faixas solidárias também para os motoristas dirigindo sozinhos, tamanha era a solidariedade que eles demonstravam consigo próprios em comoventes caronas solitárias.

E então as tais faixas solidárias paulistanas cumpriram seu verdadeiro destino, que seria cômico se não fosse trágico: tornaram-se mais e mais pistas engarrafadas, capazes, quando nada, de dar um aumentozinho no calibre das já entupidas artérias do trânsito de São Paulo. Pistas engarrafadas das quais, evidentemente, a São Paulo hoje já não pode mais prescindir. E os motoristas, pergunte se ficaram mais solidários…

Mas parece que nada disso aconteceu, que nada disso importa, que nada disso tem a ensinar a esse nosso intransponível bairrismo de Primeira Capital da Colônia.

Pois se o caminho é esse, começamos bem: em três dias, poucos usaram a faixa solidária, e o principal êxito foi ter-se criado um congestionamento onde não havia (a saber, no sentido de quem vai, que afinal ficou mais estreito). E assim segue a Bahia, sãopaulizando-se a cada dia. Aliás, sendo sãopaulizada, sãopaulizada no que a cidade de São Paulo – onde tive a sorte de poder aprender coisas da vida e fazer grandes amigos – tem de pior.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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