A pauta para hoje era para ser leve, até engraçadinha, ainda no ritmo festivo dos dias dos pais, mas os fatos nos atropelam, sufocam, difícil mesmo manter qualquer tipo de bom humor. Acordamos em Salvador com a notícia de que Selma Barbosa Alves, 53 anos, foi assaltada e morta a tiros. Selma era funcionária da Faculdade de Comunicação da UFBA, faculdade que a maioria dos colunistas deste Purgatório frequentou. Ela dirigia para deixar uma amiga em casa, no mesmo bairro onde mora. Dois homens anunciaram o roubo do seu carro, atiraram, fugiram. E nos deixaram a tristeza, as dúvidas, a raiva, a impotência, (mais) um vazio.

Por quê? É impossível sequer imaginar qual risco Selma representava para dois ladrões armados, a ponto deles atirarem para matar. Selma não media mais que 1,50m, era franzina, calma. Tampouco importa se ela reagiu ou não. Selma deveria ter deixado a amiga em casa, voltado rápido para o seu apartamento, talvez até reclamando de um engarrafamento qualquer em plena noite de domingo, devia ter tomado um banho, uma xícara de café, ter uma boa noite de sono, e então acordado para trabalhar. É o mínimo que se espera de uma cidade do tamanho de Salvador, não que assassinatos se acumulem nas pedras portuguesas cada vez mais sujas de sangue, indiferença e amargura.

Escrevi há quase dois anos atrás:

“Tá difícil, Salvador. A gente tenta gostar de você, a gente se esforça, mas você não ajuda, é miséria, é pobreza, é sujeira, violência, preço alto, metrô inacabado, ônibus apertado, prefeito-ruína, praia com sombra e, agora, quando aqui quase não se respira, ao invés de você nos dar uma trégua, ainda vem a polícia em greve. […] Tá muito difícil, Salvador. Às vezes, a vontade é de lhe abandonar, o povo inteiro lhe abandonar. Mas a gente fica, ingenuamente fica, sem saber se somos loucos ou se somos apaixonados. A linha entre amor e loucura é tão tênue: exatamente por isso eu lhe peço, não abuse de nosso sentimento, Salvador, esse teu sadismo já foi longe demais, não acha, não?”

E meu lamento poderia se repetir hoje quase palavra por palavra, a minha esperança está ainda mais rarefeita. Sei que, se houver uma solução para esta falência da cidade, essa solução envolverá uma mistura de educação, cultura, distribuição de renda, responsabilidade política, democracia e combate à corrupção. Sei também que não ajuda em nada os comentários da corja de Idiotas Virtuais, postados nas matérias online sobre a morte de Selma, sobre como a culpa da situação, na verdade, é meramente política, a culpa é do PT, do DEM e do PSDB, todos juntos e misturados. O que eu não sei, e gostaria muito de saber, é quando vamos parar de chorar.

Davi Boaventura escreve, quinzenalmente, às segundas-feiras.

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