Neste dia dos pais, O Purgatório convida Luiz Sangiovanni – que vem a ser meu pai – para ocupar o espaço da crônica dominical. Furtei um dos ótimos causos que ele conta no seu Blog do Sangiovanni e republico-o aqui, em homenagem a ele e a todos os pais da família purgatorense.

Pão de queijo por diletantismo

por Luiz Sangiovanni

Há exatos vinte anos, fui buscar minha filha no colégio. Cheguei cedo e fiquei de papo com Zé, o pipoqueiro, que reforçava o estoque para vender no final do turno da tarde.

Ele me contava sobre os planos de transformar a sua pequena atividade num negócio mais firme, abrir um ponto, qualquer coisa que pudesse melhorar na vida.

Não conversamos muito e logo chegou um amigo que eu não via há dois anos, período em que ele fora transferido para trabalhar em Fortaleza. Voltou a morar aqui em Salvador, e as duas filhas estudavam no mesmo colégio. Estávamos, ali, fazendo a mesma coisa.

Eu tinha um pequeno comércio de massas congeladas, e a tarefa na sociedade era administrar, fazer e vender as pizzas – mais de 600 unidades na semana. Entre fazer, colocar o recheio e embalar para congelar, gastava dois dias. Tempo que eu usava para refletir e pensar na vida, se aquilo mesmo era o que queria fazer. As idéias para o negócio crescer vinham dos amigos e parentes mais entusiasmados. Cada idéia um projeto e a impossibilidade de realizar – era necessário capital e esse já tinha ido nos investimentos primários.

Perguntei ao amigo se ele continuava na mesma empresa e por Rosa, a sua mulher. Disse que estava tentando recomeçar e se reafirmar, já que conhecia a clientela. Quando falou de Rosa, foi bem rápido na resposta:

– Tá fazendo pão de queijo por diletantismo – curto e grosso, não dando chance para perguntas.

Pensei e me perguntei: pão de queijo por…  diletantismo? O que é isso? Como eu não sei o que é isso? Que empresário do ramo de alimentos eu sou?

Bom, quando a pessoa não sabe o significado da palavra, é melhor ficar mesmo de boca fechada e apenas responder positivamente, fingindo que sabe, antes de achar e consultar aquele Aurélio de 1986.

– Que ótimo!

Continuei a pensar: e se eu fizesse as pizzas por diletantismo? Será que teria que mudar de marca de farinha? Di-le-tan-tis-mo, foi isso que eu ouvi. Deve ser com algum curso especial, por correspondência, talvez. Alguma fórmula nova do mercado. Deixa pra lá.

Semana passada, eu estava conversando com um amigo bem encaminhado na vida, e ele falava da vontade de fazer alguma coisa extra, do tipo gastronomia. Não me contive e disse:

– Porque você não vai fazer pão de queijo por diletantismo?

Ele respondeu:

– Você pode me explicar como é isso? Como funciona?

– Esqueça, é melhor você procurar no Google e ver como funciona. É uma longa história!

(crônica publicada originalmente aqui, em 21/01/2013)

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