Tempo é quando você acha que vai morrer e depois passa, minha vó dizia. Mas isso tem anos, tantos que ela já vive embaixo da terra.

Sei que tudo isso já passou. Está tão longe que no momento em que escrevo estou me lendo, velhinha, balançando numa cadeira velha que desbota.

Sei que tudo isso já passou. É que ontem eu tive um pesadelo, desses horríveis em que alguém que você ama passa por perigo de morte.  Acordei assustada como todas as outras vezes e quando descobri que era só um sonho, vi que você não estava lá me abraçando em silêncio fazendo sumir o mal do mundo.

Sei que tudo isso já passou. Mas me deu vontade de ser triste de novo, só um pouco, para prestar honras a essa saudade persistente desconsolada.

Mas isso tudo está tão longe que já sou uma velha cheia de rugas lendo cartas desmanchadas e ela ri, exatamente agora, de tanto sofrimento vão. E tenta lembrar do seu rosto, tenta, tenta, tenta, mas não consegue. E nem sabe mais como foi mesmo essa história, se existiu de verdade. A única coisa de que ela tem certeza é ouvir a voz de sua vó dizendo tempo é quando você acha que vai morrer e depois passa.

Até estar verdadeiramente embaixo da terra sem pensamentos.

Tatiana Mendonça virou budista e escreve às sextas 

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