Faltam técnicos no país. Existem setores que apenas 30% das vagas são preenchidas, por não haver quem tenha qualificação para ocupa-las. Operadores de maquinários e controladores de produção, como os engenheiros elétricos e os analistas de sistema, são procurados com fotos em postes e cartazes ao meio-dia. Aceitam-se também controladores de voo, cozinheiros de fábrica, gerentes agrícolas, a quem conhecê-los e transmitir a mensagem possa. Se souber eletrônica, por favor compute todos, e aproveite também para juntar-se. É preciso aproveitar a sorte que a maioria dos nossos conhecidos não têm, seresteiros das artes e dos textos, artesões das novidades e dos encontros. Nós, que nos esgueiramos em bicos e pagamentos postergados, nunca nos imaginamos de óculos e capacete em meio às faíscas. E por que não?

Lemos muito, reinterpretamos a fábula da cigarra e da formiga, ouvimos canções e conversas na madrugada, assistimos a filmes que nos emocionaram qual um evento público – e de todos eles aprendemos que apenas uma vida autêntica vale a passagem. O que vier dos fios de nossos destinos deve se estender para a máxima expressão do que nos é mais caro . Como faríamos, se as nossas mãos estivessem ocupadas com botões ou instrumentos que não os musicais? Os versos dizem que são infelizes todas as repartições, nenhum escultura foi feita em uma mina de carvão, e os tratados alertam que um homem com uma máquina é na verdade uma vítima escalpelada. Os técnicos pertencem à camada bruta e fria da realidade, à secura que aos poucos lhes desfará – o tóxico nos químicos, a poeira nos geólogos, a ponta da chave de fenda contra o olho de quem foi consertar um sistema de automação… No fundo, lá onde somos totalmente honestos, professamos e acalentamos que só os artistas e os criadores se salvam, nós talvez muito religiosos com o sublime, e também ainda lusitanos na suspeita contra o que pesem os braços.

Meus caros, e se tivermos confundido a arte com os artistas, e a autenticidade com a literalidade?  Aí foram algumas sinapses desviadas dos macacões e das máscaras  por relacionarmos com muita exatidão o viver poeticamente com o viver de poesia… Agora que, por lei, preciso falar de filosofia em uma sala de aula para futuros técnicos, não posso me furtar da questão: como discutir sequer um tema sem crer que o belo também os perseguirá? Imagino um dos estudantes sorrindo para as nossas visões de artistas e de escritores, chegando até nós com um livro de contos em mãos: “Já que são vocês os portadores das histórias, leiam esta”. E olhem só, apontaria, por coincidência, para um texto querido, o Casamento à lá mode, de Katherine Mansfield.

Um funcionário público não consegue mais entender-se com a esposa, desde que ela conheceu e passou a trazer um grupo de artistas para casa, que comem tudo, hospedam-se, zombam. Pintores e poetas – a cada cena vívida imaginam um quadro ou um verso e do mundo prezam apenas por suas representações. Sobre o funcionário, sentem ironicamente pena de sua “cafonice” e do seu trabalho com artefatos estéreis. A esposa começa a repetir o mesmo desdém e, ainda ao receber dele uma carta de amor que quase a rememora dos primeiros bons anos, ouve mais as gargalhadas dos amigos. O funcionário, que vai embora com o trem, observa o mundo passar: “O sol da tardinha brilhava sobre mulheres com vestidos de algodão e crianças descalças queimadas do sol. Luzia sobre uma flor sedosa amarela com folhas grosseiras que se espalmavam sobre um talude rochoso. O ar que entrava em rajadas pela janela cheirava a mar”. Era um poeta nas retinas.

Poderíamos estranhar o estudante, vindo talvez de Mecânica ou de Refrigeração, com este conto perante a nossa face e perguntar o que ele quer dizer. “O artista não garante a arte, e um cineasta pode ver menos cores em um quadro do que um engenheiro em uma fusão, e um escritor pode esquecer nas páginas os amores que um operador industrial amanhece naturalmente na praia distante, sob os cachos de uma vasta cabeleira”. Sim, é verdade que neste mundo falte tanta poesia no olhar quanto técnicos no país. Nos dois casos, só haverá vagas a quem se cultivar, sem distinções.

Saulo Dourado escreve, quinzenalmente, às segundas-feiras e depois corre para alguma sala de aula, nessa boa e nova vida dupla.

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