O ponto crítico ocorreu na noite em que, ademais da bermuda de tactel que sempre vestia para dormir, ele foi para a cama usando o aparelho: o transmissor, preso ao tórax por uma tira de elástico, e o relógio que monitorava a frequência cardíaca.

— E isso, agora, Patrício? — indagou Ludmila, impaciente antes mesmo de ouvir qualquer resposta.

Tinha razão a moça. O que se seguiu foi uma sacal palestra sobre a importância de precisar a capacidade do coração, não bastando apenas saber qual era a frequência máxima, obtida pela subtração da idade da gente de duzentos e vinte, mas também calcular a frequência de repouso, para depois diminuir esta daquela e usar o resultado como fator multiplicador no treino, de modo que não arriscasse, justo agora, que estava passando menos tempo na zona de resistência e mais na zona vê-ó-dois máximo, ultrapassar o teto desta e descambar perigosamente na zona de esforço máximo, na qual mais de noventa por cento da capacidade cardíaca era acionada. Um perigo! E, também, porque nos últimos dias, no trabalho, ele percebera que, mesmo sentado, a frequência não baixava para menos de 100 batidas por minuto, o que não estava dentro da normalidade, ainda mais para alguém que se exercitava e…

— Pera — cortou-o a esposa. — Você anda usando essa porcaria no trabalho?

— Essa porcaria podia ter salvado o Tadeu, que não sentiu nada até cair morto  — irritou-se ele. — Eu me convenço cada dia mais que todo mundo devia usar frequencímetro a todo instante.

— Querido, o que aconteceu com seu colega foi uma fatalidade. Ele…

— Menos de trinta, Ludmila! Ele era só um ano mais velho que eu. E bem mais em forma. Sabia que ele não comia carne vermelha? Uma vez, quando todo mundo foi pra uma churrascaria, no amigo secreto de fim de ano, ele ficou só na salada e no sushi, quando muito arriscou um queijo coalho com melaço. Um só! Fora isso, ele…

— Patrício! A gente não sabe como era a genética do Tadeu, se ele tinha algum problema congênito. Mas você, amor, você fez todos os exames cardíacos possíveis e imagináveis, fez consultas com os melhores médicos da cidade, se alimenta bem, se exercita, e não tem ninguém na família que…

— Tenho: um primo do meu pai morreu de infarto na casa dos sessenta.

— Você tem vinte e oito, Patrício!

— E fumei dos dezesseis aos vinte e cinco. Fui ocioso até o Tadeu morrer, no início do ano. Comi um monte de porcaria a vida inteira: bolacha recheada, pizza, salgadinho, lasanha congelada, refrigerante. Você acha que isso não me fez mal de alguma forma? — ele bateu sobre o lado esquerdo do peito com o indicador e o dedo médio. — Que isso ainda não vai cobrar seu preço?

— Eu sei lá, Patrício — ela suspirou, cansada. — Eu acho que você está com trauma da primeira morte que presenciou na vida. A gente devia procurar um psicólogo pra você…

— A gente devia era deixar esse assunto quieto, que, olha, mesmo deitado, eu estou a 121 bpm. Sendo que minha capacidade máxima é 192, eu estou a… deixa eu ver… cento e vinte e um por dezenove dá seis; sobram… 62%, Ludmila! E eu não estou fazendo nada! Pequepê!

— Calma, meu amor — ela tentou abraçá-lo, mas ele ergueu o tronco e se arrastou para fora da cama. — Aonde você vai, Patrício?

— Tomar um calman, que o médico receitou — anunciou, dirigindo-se à cozinha. — É fitoterápico. Melhor que o rivotril que você engole de vez em quando, viu?

Ela se ofendeu, mas preferiu não comprar briga. Incutido é pior que doido, costumava dizer sua vó. Azar o dela, que o amava, mesmo obcecado do jeito que estava com a saúde. O que não era de todo mal: ele nunca esteve em melhor forma desde que se conheceram. As pernas grossas, a barriga controlada, o fôlego estendido. Quando Patrício voltou ao quarto, encontrou-a nua e descoberta, deitada em pose que denunciava a espera e suas intenções. Ele sorriu. E baixou os shorts.

A performance seguia em grande estilo. De repente, Patrício fez uma acrobacia inusitada e pousou fora da cama.

— O que… o que foi? — perguntou Ludmila, atordoada.

Agora, que os gemidos e estertores se haviam calado, podia-se ouvir um bipe agudo, apitando fraco, insistentemente.

— 201 bpm! — disse o marido, aflito, de pé com o relógio a dois dedos da cara. — Pequepê! Que calman, que porra nenhuma! Onde você guarda o rivotril?

.

Breno Fernandes escreve às terças

Anúncios