Disse outro dia a meus alunos – custa-me habituar-me a essa condição inverossímil – da faculdade de comunicação que não há ciência nenhuma na prática do jornalismo.

Torceram-se umas caras, uns quantos pares de olhos esbugalharam, e então perguntei se havia dito alguma besteira, se eles acreditavam no contrário. “Acredito, disse uma moça. Se não, não estaria aqui”.

Retruquei-lhe que não me levasse a mal, que estávamos todos nós ali na sala – como aliás estamos todos nessa vida – para perder ilusões. (Digo perder ilusões, não a capacidade de iludirmo-nos com ilusões novas, com sorte mais amadurecidas que aquelas perdidas.)

Pois avalie você, moça, o que foi a cobertura jornalística da visita do papa ao Brasil, e veja se não tenho um pinguinho de razão. Passamos uma semana inteira sendo massacrados por um noticiário que para mim foi o maior depoimento de que não há imprensa laica no país, nem critérios ditos jornalísticos que sobrevivam, na hora do vamos ver, ao olhar ideológico – pior, ao olhar hegemônico – das principais empresas brasileiras de comunicação. Qual ciência, então?

Pois digo e repito: não há, não há, não há ciência no fazer jornalístico em nosso país – nem sei se no mundo haverá. Fato que, se for verdadeiro, não deve nos espantar demais, afinal o jornalismo nasceu do prelo e tem como justificativa última (única) a propriedade dos meios de difundir informação, nada mais. Mas deve, sim, nos espantar um pouco, afinal, lá se vão décadas desde que abriram-se as faculdades de jornalismo – o que, se entendo bem, serve para atribuir critérios científicos à razão de ser da nobre atividade – , e a prática do dito cujo segue, tirando uma melhorinha aqui, uma piorinha ali, na mesma.

Se minto, é de boa fé, vocês me desculpem e por favor me corrijam. Mas sou levado a crer que, se por um lado o jornalismo de hoje em dia tornou-se mais permeável ao acesso de gente normal, sem sangue azul, às funções de imprensa – o que, isoladamente, é coisa interessante – , por outro, não faculta nem requer mais do jornalista função maior de pensador, à guisa de substituição dos antigos “intelectuais” das elites – o que, somado à tal permeabilidade, talvez resultasse em ganho, em ampliação do espaço para um jornalismo mais crítico, menos elitista, mais arguto, inteligente, democrático e, quando nada, confiável.

Mas o que ocorre é que, na falta de gestão e prática minimamente norteadas por critérios e debates científicos – e não por tecniquinhas do cu da gia – dá nisso aí: fora uma ou outra brecha, o fato é que quando chega a hora de falar de coisa séria, seguimos pedindo a benção a papas e afins, na maior faceirice (ver de 1min21s em diante).

E vamos nos acostumando, acoitados, a dourar a pílula de nossos pequenos méritos, a trocar os fins pelos meios, a reconhecer entre nós mesmos nosso valor profissional pelo “com quem conseguimos falar”, bem mais que “pelo que falamos, seja lá com quem consigamos (escolhamos) falar”.

Dou um exemplo: essa entrevista global, reputada como grandíssimo furo de reportagem, com o papa Francisco. Qual o grande êxito, senão o de “ter boas fontes”, senão o de “ter conseguido vencer a resistência do Vaticano” a que o papa desse a entrevista? Que ela tenha sido “a primeira”? Que tenha “durado 45 minutos”? Mas que moedas de avaliação de sucesso ou fracasso jornalístico são essas?

A quem a esta altura já esteja me acusando de estar polemizando isso apenas porque 1) não fui eu quem conseguiu entrevistar o papa, aliás a grande personalidade que terei conseguido ‘perfilar’ (oh, verbo mais infame!) na vida terá sido… Pablo do arrocha; ou 2) porque sou um baiano despeitado pelo fato de o autor da façanha ter sido um jornalista pernambucano; a quem pensa assim convido a dar uma revisada na entrevista – e na bolha de auto-vangloriação global que ela gerou.

Vocês notarão que 1) o papa não disse nada demais, nada além do que quis, sobre o que quis e como quis. Se tivesse mandado um video gravado na humilde choupana onde vive, o conteúdo bem que poderia ter sido o mesmo; 2) o repórter diz que não houve pauta combinada, mas também não perguntou nada realmente espinhoso (Ditadura na Argentina? Pedofilia? Aborto?), que dirá algo que permitisse ao espectador entender melhor o que há (se há) de concreto por detrás do humanismo-populista de Francisco; 3) no dia seguinte, o repórter foi o convidado de um programa da própria emissora para ser “sabatinado” pelos colegas jornalistas. No programa, ele ouviu dos pares orgulhosos que a entrevista fora o que “qualquer jornalista” (?!) gostaria de ter feito, e ficou-se ainda sabendo que ele presenteara o papa com um livro seu, com uma “dedicatória muito carinhosa”; 4) apesar da “entrevista exclusiva”, a única fala mais ou menos impactante do papa nesse balaio todo – o aceno, lido com lupa, nas entrelinhas e com muito boa vontade, de tolerância à homossexualidade – foi dada no dia seguinte, numa coletiva, no avião. Note-se que, apesar de ter sido em resposta a uma pergunta de uma jornalista brasileira, não havia sido bem aquilo o que ela perguntara… ; 5) o repórter, com aquela típica cara-de-ver-Deus, alumiada por um facho de luz dourada, admirou-se do fato de o papa ter tido a preocupação de perguntar a ele (a ele, pobre jornalista neste vale de lágrimas!) se tinha sido claro ao final de cada resposta.

Ora, tenha santa paciência. Entrevista por entrevista, tanto faz com papa, rei, milionário, artista ou mendigo: importa é que cumpra a função ou de problematizar uma/algumas questões, ou de apresentar criticamente alguém ao leitor ou espectador. Se o papa deseja parecer fofinho, aparece na tv mostrando-se um fofinho, dá uma entrevista exclusiva afirmando que é um fofinho, e quando chega domingo à noite você recebe um telefonema de sua mãe dizendo “você viu o papa, que fofinho?” (achou graça? pois eu recebi) – se isso aconteceu, é porque o rei está nu e ninguém percebeu; e, nesse caso, há algo de podre no reino do jornalismo, amigos.

Enfim, vou ficando por aqui, que não quero estragar o santo domingo de ninguém com meu fel blasfemo. Em resumo, assim cada vez mais segue sendo o jornalismo. E, com tristeza, cada vez menos jornalista sigo sendo eu.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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