Tinha uma babá na calçada com o menino, na frente do prédio, mas do lado de fora do gradil (que aventura deve ser!). O prédio tem um nome bancário, “Casa da Escócia”, mas cresce diante dele uma improvável pitangueira, nova ainda, no cercadinho que lhe cabe na calçada. E a babá explicava para o menino efusivo dentro do carrinho que aquilo ali era uma pitanga.

E é claro que o menino poderia estar em um parque vendo alguma pitangueira ou coisa que o valha que tivesse ao menos o direito a um cercado maior dentro da cidade, mas não estava. E poderia estar efusivo apenas pela ansiedade de estar fora do seu cercado conhecido, e ─ querendo mais liberdade ainda ─ preso ao carrinho. Mas não estava. Era a pitanga, a gente pensa, era a descoberta de algo novo e impressionante do qual ele não se lembrará amanhã, nem quando for ao parque, nem da babá que contou.

De uma babá, Lúcia, só me lembro que gostava dela. De outra, Néa, lembro que quando abusada respondia: “Nem te ligo, se ligar dá choque, se chocar dá pinto. Se o pinto for de raça, te mata na pirraça” e nos deixou a resposta como legado inestimável e insubstituível para ser usado em qualquer provocação na vida, com efeito revigorante.

No mesmo bairro, mas em outra rua e só à noite, tem um senhor que monta uma estrutura. Como sempre o vejo à noite, não sei  o que ele faz no resto do tempo, que talvez não importe. À noite, no entanto, ele fica dentro do cercado da frente rebaixada de uma loja que, já fechada, lhe serve de ateliê. Suspeito que pode morar (ou guardar seus pertences), numa árvore ao lado que, além do canteirinho que lhe cabe, foi também encaixotada por plásticos e pedaços de papelão ─ de modo a parecer, senão um banheiro público, um lugar bastante privado.

Suspeito disso também porque o casulo da árvore é amarrado com fitas de presente verdes, as mesmas que o senhor usa em grande quantidade no seu ateliê, onde passa todas as noites ordenando e amarrando outros pedaços de papelão, de plástico e de madeira para construir algo que ora parece uma mesa, ora um armário, mas que nunca acaba.

Camilla Costa escreve aos sábados.

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