Acredita-se que o velho morreu de queda, mas a versão carece de testemunhos. Quando os vizinhos incomodaram-se com o cheiro já passava tempo. Sua ausência não foi notada, quase ninguém o via. Estava sempre para dentro de casa vivendo sua vida de pessoa só, malmente conversando do portão com os estranhos que vinham lhe trazer a compra do mercado.

Chegou a polícia com o carro de defuntos e juntou gente para ver, apesar de não terem informação para dar. Ficaram por ali trocando especulações sobre a morte e o morto, depois de tanto desinteresse por quando era vivo.

Só uma senhora tentou uma vez se aproximar dele, contava que até bolo levou. A recebeu do portão, ouviu o boas tardes sou sua vizinha fiz esse bolinho aqui para o senhor tomar café e agradeceu sem sorrir. Emendou o obrigado com o não precisava e encerrou a conversa com um não precisa voltar que foi dito em voz baixa, mas era antes uma ordem que uma recomendação de quem se faz de difícil.

Ouviram todos o caso com atenção redobrada, por ser só o que tinham, fora o cochicho dos policiais de que deveria ter sido queda, porque foi encontrado no chão e era velho e já se sabe do que os velhos morrem.

Um homem de bermuda e chinelos contou que ouviu dizer que era rico mas perdeu a fortuna, a mulher e os filhos e ficou só com aquela casa em que vivia. A senhorinha do bolo discordou, tinha quase certeza de que era um escritor de sucesso, só um pouco infeliz, e admirava que ainda não tivessem chegado os jornalistas. Queria dar um depoimento e perguntar o nome de algum livro, para que pudesse lê-lo. O gari relatou que o viu andando um dia de manhãzinha, quase madrugada, e que achou que tinha cara de doido, desses assim sem consolo.

Como começasse a chover, cada um tomou depressa seu rumo.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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