Alguém nesses tempos de troca de papa recordou Padre Pinto, até o pediu para Sumo Pontífice. Achei graça.

Padre José Pinto, para quem não é vezeiro em Bahia, é um sacerdote da Santa Igreja Católica Apostólica Romana que ficou famoso em 2006 por celebrar missa de Reis vestido ora de Oxum, divindade do Candomblé, ora de entidades ancestrais de cultos indígenas. Trajou-se, pintou-se e dançou danças rituais sincréticas, com o apuro técnico que lhe permite a formação de bailarino pelo Balé do Teatro Municipal do Rio.

“Dom Geraldo [arcebispo hoje emérito de Salvador, que recentemente elegeu o novo papa] está sabendo. A CNBB também está sabendo. O povo é que se assusta”, disparou Pinto ao microfone da Rede Globo, em cadeia nacional. E clamou: “Eu não quero sair daqui! Quero morrer aqui, no altar!”

Pinto levou um puxão de orelha da Cúria, mas voltou a aprontar, ora pintando em boate gay, ora roubando em público um selinho a Caetano Veloso. Só então é que tomou um gancho de verdade: foi deslocado da Lapinha, no centro, à periférica paróquia de São (surpresa) Caetano, rebaixado a pacato vice-pároco.

Mas ia-lhes dizendo que me divirto, mas advirto que a faceirice do Padre Pinto é só um exemplar mais recente da longa história clerical de desvios dos preceitos da fé na Bahia – e, por tabela, no Brasil.

Arrisco inclusive dizer, na falta de quem bem me desminta, que o primeiro caso aqui registrado remonta à alma de padre Frutuoso Álvares, português, vigário de Nossa Senhora da Piedade de Matoim desta Cidade da Bahia na segunda metade do século 16, primeiro da colonização lusa e cristã dessas terras do Brasil.

Corria o ano de 1591, e nem bem a Visitação do Santo Ofício abrira seus trabalhos na colônia, lá estava padre Frutuoso, sem nem ter sido chamado, primeiríssimo da fila, todo ardoroso para uma confissão voluntária.

Jurou com a mão direita sobre a bíblia e açodou-se a contar que havia quinze anos, desde que chegara à Bahia, vinha cometendo de maneira contumaz “a torpeza dos tocamentos desonestos com algumas quarenta pessoas pouco mais ou menos, abraçando, beijando (…) moços e mancebos que não conhece nem sabe os nomes”, conforme anotação do notário do Santo Ofício, Manuel Francisco.

“Em especial”, lê-se, “com um moço que chamam Gerônimo”.

Do tal moço ficamos sabendo, através de depoimento do próprio, tratar-se de Jerônimo Parada, “estudante, cristão-velho, natural desta Bahia, de idade dezessete anos”. Em sua confissão, o moçoilo ratifica que, há coisa de dois ou três anos, em dia de Páscoa, fora de fato à casa do clérigo. “E o dito Frutuoso Álvares o começou a apalpar, dizendo-lhe que estava gordo e outras palavras meigas…”

Deitaram-se coisa de uma dezena de vezes. Até um belo dia em que Jerônimo resolveu dar um basta naquilo. Louco de amor, o padre ofereceu um vintém ao moço por mais um amasso – mas este, tenaz na fé, recusou.

Aí o padre, irresistível, ofereceu dois. E deitaram-se de novo.

Pelo depoimento do padre Frutuoso ficamos sabendo ainda que seu histórico era antigo, longo e deveras conhecido da Igreja. O clérigo já praticara os tais “tocamentos desonestos” com um rapazote de Braga, Portugal – motivo pelo qual fora desterrado, primeiro para Cabo Verde, depois, sob nova acusação do mesmo crime, “sentenciado e condenado em degredo para sempre nestas partes do Brasil”.

Que ninguém pense que eu estou aqui insinuando que Padre Pinto seja por acaso homem dado a tocamentos com mancebos, como Frutuoso; tampouco que padre Frutuoso tenha-se desviado da doutrina, como Pinto.

Então, afinal, que nos ensinam essas duas parábolas, queridos irmãos?

Sem dúvida, uma porção de lições mais ou menos edificantes sobre o passado e o futuro do Brasil e da religião católica, as quais porém falta-me agora o tempo e sobra-me uma enorme (uma existencial) preguiça de enunciar. A mais importante de todas, no entanto, é que essa Bahia velha não deixa a gente levar muito a sério esse papinho mole de Igreja. Pois então, conta outra, papa Chico.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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