Escrevi em 2007 o micro-conto que segue abaixo. Em alguns casos, a reedição torna-se mais necessária que a novidade, ou melhor, a reedição lembra a extensão de passado que se esconde dentro da novidade exausta.

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Renan puxava minha saia com força de moleque, só pra me ver no susto, derrubando a colher no caldo quente. Dava risinhos de banguela e seguia feito vento morno a se esconder atrás do sofá. Eu chamava de peste, falava que ia contar todas as presepadas pro pai e que nunca mais lhe fazia leite morno com sal. Mas nem ele largava o riso e o sofá, nem eu deixava de achar graça, lá no porão, no porão de mim. Pela tarde, Renan metia a mão nos canteiros do quintal, enterrava, desenterrava boneco, brincava de botão com uns três melequentos da rua, depois corria, corria e entrava na casa pra me contar que não gosta nada quando anoitece. E tinha dia quieto, Renan no dever da escola, rodeado por papel e estojo na mesa da cozinha, bem em minha hora de lavar os pratos. Deixava o lápis cair, manhoso, e me pedia um causo. Eu atendia com um e mais outro lá da terra da terra rachada, do boi magro, do lobisomem, roda de ciranda e amor bonito de inverno. Ele nem piscava.

Renan é inocente, na minha memória.

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