– Feliz aniversário.

Foi a única frase que eu consegui dizer. Não que eu tenha ensaiado algo mais que isso, sempre confiei na minha capacidade de improvisação e oratória rocambolesca. Mas eu tinha um plano, e era simples: Ligar, desejar feliz cumpleaños e logo engatar algum assunto superficial – você também adora cultura inútil – talvez sobre esse frisson apocalíptico de fim-de-ano, você assistiu “Seeking a friend for the end of the world”? E essa série da globo com Alinne Morais? Se a gente fizesse uma versão ‘suecada’ de Melancholia sairia bem melhor não acha?

É que eu desejava compartir [gosto mais dessa forma verbal no espanhol, como você] com alguém que não estou tão tranquilo quanto a impossibilidade do mundo acabar. Não tem a ver com essa nuvem tóxica que assusta Buenos Aires [estoquem os alfajores e o Fernet, por favor!], tampouco com morte de Niemeyer, a lentidão da internet, com o calor infernal ou com essa dor de cabeça que dura três dias. Porém não me tranquilizo com comunicados da Nasa e notas oficiais de governos que buscam evitar o pânico. Acredito sim naquele profeta engravatado da praça da Piedade e naquele mulambento que me pediu ‘2 real’ na saída do Cravinho. Não é questão de credibilidade, é questão de fé na ciência antiga. Todo mundo sabe que o calendário Maia é mais estável e preciso que o nosso gregoriano e que eles eram melhores astrônomos. Resignar-se é preciso, viver não é preciso.

Na verdade estou ligando não apenas para você. Você é uma das últimas da lista, a ordem é a cronologia de minha vida, ou seja, o momento em que cada pessoa passou a significar algo para mim. Pensei em organizar um congresso, ou algo que valha, mas por questões logísticas e econômicas – devo a Deus e o mundo, pelo menos o último vai acabar – abortei a ideia.  A coincidência dessa ligação cair na data do seu aniversário é curiosa, mas não temos  tempo para buscar alguma explicação lógica. Só precisava mesmo te dizer que naquela madrugada que você saiu na ponta do pé, eu estava acordado. Vi quando saiu se esgueirando pelo escuro na tentativa de não me despertar e quando fechou a porta do apartamento delicadamente. Não intercedi porque prometera horas antes que não mais te incomodaria, que ali seria nossa despedida. Foi bem melhor pra gente, sabia? Você sempre teve as melhores soluções.

Contudo não acatei a outra parte do acordo. Não estou cuidando de mim, sigo desleixado a cumprir meu destino auto-destrutivo. Agora, isso pouco importa né? Quase posso ouvir os anjos tocando “Delícia, assim você me mata” nas trombetas, após o rompimento do sétimo selo. O planeta, esse imenso vale de lágrimas e dor, perecerá em quinze dias.

Só que o meu mundo entrou em colapso desde que você bateu aquela porta.

PS¹: Essa é uma obra de ficção. Qualquer similaridade com o mundo real é proposital, mas não passa de similaridade.

PS²: Estarei de férias, junto com o Purgatório, até 10 de janeiro. Até lá, se não estivermos no Purgatório real.

PS³: Sempre quis um título duplo, pomposo. Ei-lo.

PS³¹/²: Boas Festas e Feliz Apocalipse para vocês!

Alex Rolim se borra de medo que o mundo acabe. E escreve às quintas

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