Para T.

Achei o título bonito e a crítica no jornal dizia que prestava – apesar de não ser recomendável confiar neles. E como ultimamente as pessoas estão me perguntando muito você está bem (não da maneira automática) e eu na verdade nunca sei o que responder, escondi o livro depois que comprei, para elas não começarem a achar que estou enlouquecendo de uma maneira perigosa. O céu dos suicidas é o nome. E o começo é tão ruim que quis chorar, um complô, mas persisti porque não tinha outra coisa para fazer e porque tenho por princípio nunca abandonar um livro.

Aí ele foi ficando bom de um modo que não sei explicar, porque não mudou quase nada. Então é como se você fosse tomando amor por ele, mesmo sendo daquele único jeito que soube ser. Isso só já é tão bonito, não é?

Vou fazer um resumo para te dar a chance de, se for o caso, dizer lamento, não estou para isso agora. Um homem, especialista em coleções (mas que fez questão de destruir todas as suas), fica desnorteado porque o amigo se matou e ele foi a última pessoa para quem ligou. A Culpa. Não vou contar mais para não estragar a história, se por acaso você quiser ler. Tem muitos trechos ótimos que a gente amaria ficar repetindo até virar a piada do não-veja-a-luz, como a frase Não é o mundo que está gritando, Ricardo, é você. Mas tem principalmente esta parte:

Não sei se entendiam. As pessoas que não conseguem parar de puxar os cabelos, aqueles que ferem os próprios braços com um canivete, essa gente que um dia ninguém suporta mais, os que se isolaram, os doidos que não param de falar sozinhos, que deixaram de compreender, aqueles que não sabem mais nada estavam como eu: ali naquela capela feia olhando a garota que tinha acabado de perder a avó e acha que essa dor tão profunda nunca vai passar. Como todos nós um dia e eles a vida inteira. 

Ando precisando tanto ver o mar e estar nele para entender de coisas grandes e pequenas.

Te amo sempre, mesmo quando você não responde meus e-mails_ sabe que sou escorpião e, por mais que eu queira, astrologicamente não posso deixar de te dizer isso.

Tatiana Mendonça escreve às sextas e hoje autoroubou uma quase-carta que escreveu para um amigo seu

Anúncios