Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam
José Saramago em “A Viagem do Elefante”

Acabo de me mudar, de novo. Lisboa é minha oitava cidade diferente. Tentei pensar na quantidade de casas em que morei, mas desisti. Com certeza são mais de vinte.

Outra vez fazer as malas, outra vez jogar fora o que não serve (e às vezes nunca serviu), outra vez fazer com que a vida se reduza a 50kg de peso.

Para mim, mudar é, também, fazer um balanço da vida. Pensar no que se deixa e no que se espera encontrar. Na grande maioria das vezes, me mudei porque quis, o que fez com que, creio eu, minhas despedidas fossem menos traumáticas e minhas chegadas cheias de esperanças e expectativas.

Gosto de mudar, e a sensação de descobrir uma nova morada, de pouco a pouco sentir que passei de turista a local – enfim, fazer parte da paisagem-, me faz sentir vivo. Mas talvez fosse o momento de se perguntar o por quê de tantas idas e vindas.

Há quem passe a vida toda morando no mesmo bairro, alguns na mesma casa, enquanto há quem, como eu, sente verdadeiro comichão quando completa o segundo ano de vida em um lugar.

Em espanhol há uma palavra que exprime essa inexistência de raízes que atam alguém a algo. É o desarraigo, e fala-se em um sentimento ou sensação que impossibilita que uma pessoa se sinta ‘de certa parte’, crie laços com seu entorno. Esse é, hoje em dia, meu pesadelo: sentir-me sempre um estranho, um forasteiro que passará a vida tentando encontrar sua casa. Mas prefiro pensar que não é assim, que minha casa são muitas e que vou deixando algo por cada lugar que passo; e que quando chegar a hora, sem esforço e sem pressa, me fixarei à uma terra e poderei por fim dizer: fico por aqui.

Ricardo Viel escreve às segundas

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