Em 1969, Jorge Amado, no documentário “Bahia por exemplo”, de Rex Schindler, diz assim:

Eu acho que a Bahia é uma dessas raras cidades que são feitas à medida do homem, cidades para o homem viver. Não sei por quanto tempo isso ainda perdurará. A Bahia está começando a crescer, e é importante que ela cresça – mas é importante que ela não cresça mal.

(Bahia, aqui, é metonímia capitalina para encurtar a “Cidade de Salvador da Bahia de Todos os Santos”.)

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Em 1982, Pierre Fatumbi Verger, no livro “50 anos de Fotografia”, dele mesmo, escreve assim:

Fiz assim várias idas e vindas entre a Bahia e a África. Amo quase igualmente as duas margens do Atlântico, com um pouco mais de ternura, no entanto, pela “Boa Terra da Bahia”. A vida cotidiana aqui ainda me parece cheia de encantos depois de um terço de século de estada.

(Aqui, também, a metonímia.)

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Em 2012, pergunto-me, sem nenhum saudosismo e com palpitante preocupação pelo que virá, numa Bahia que em encantamento cotidiano esforça-se por desmentir o retrato de Verger, se – e o que – será possível fazer para resgatar do ostracismo a desprezada advertência de Amado.

(Nova metonímia: essa pergunta é a que nos fazemos nós todos.)

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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