Roman Polanski é um diretor genial e polêmico. Premiado e admirado por seus filmes, criticado e condenado pela conduta pessoal que culminaram com sua prisão, na Suiça, em 2009. Enquanto o pedido de extradição para os EUA for negado pelas autoridades helvéticas, ele segue dirigindo. E através de suas lentes descortina o misterioso labirinto da natureza humana. Algo latente na sua última obra Carnage [2012].

A película é uma adaptação da peça Le Dieu du Carnage, de Yasmina Reza, que co-assina o roteiro com Polanski. Isso explica a teatralidade do filme – que me lembrou o clássico Hitchcockiano” Festim Diabólico” – suas falas ágeis, a dinâmica sedutora potencializada pela performance segura dos quatro atores e a tensão sempre presente no ambiente da ação. Ambiente único ressalte-se, um apartamento de poucos cômodos e decoração aconchegante.

O mote inicial do filme é simples e atual. A partir de uma agressão entre crianças, na verdade uma resposta hostil à prática do bullying, dois casais [os pais do agressor e do agredido] são impelidos a redigir uma missiva conciliatória. Há um constrangimento evidente na situação que cresce à medida que vão surgindo, paulatinamente, as divergências em relação ao episódio. Cada casal, ainda sob o verniz da polidez, defende retoricamente seu pupilo.

Curiosamente em alguns momentos há a impressão de que o embate cessará. O casal visitante chega até a porta do elevador, mas uma força obscura, aparentemente surreal – aqui me lembrei de ” O Anjo Exterminador” de Buñel – os traga de volta não apenas ao apartamento, mas ao conflito, num movimento cada vez mais vertiginoso.  As provocações, antes comedidas, passam a ser mais ríspidas e direcionadas. O entrevero dos infantes é até mesmo esquecido por longas sequências.

As máscaras dos personagens começam a derreter e as imperfeições, idiossincrasias, e fragilidades ficam evidentes. Tudo é potencializado pelos rearranjos entre os casais. Já não há mais defesa pelos filhos, torna-se um jogo de machucar pelas palavras, expor o lado sinistro de cada um, impor sua posição através do escarnecimento do opositor. Um jogo cínico e mordaz, que muda de direção, opõe marido x esposa, homem x mulher, sucesso x fracasso, vaidade x altruísmo… Polanski explora ad nauseum as possibilidades, sempre com muita perspicácia e ironia.

Impossível não enxergar naquele pequeno ambiente perverso um microcosmo das relações humanas em geral. A verdade universal e obducta de que estamos fadados a conter nossos mais íntimos desejos e opiniões a fim de manter uma razoabilidade social, negando os nossos instintos mais animalescos, monstruosos, carnais. Uma negação que sucumbe quando somos confrontados com situações limite.

Estaria Polanski se justificando através de seus filmes? Acho pouco provável. Em uma das falas do filme a personagem de Jane Fonda contradiz, sem muita convicção, seu antagonista quando este afirma que ela escreve para se salvar – como o purgador Ricardo Viel. Polanski parece ter consciência que seus filmes não lhe trarão salvação, mas que através deles pode descortinar e humanizar a faceta abominável que lhe atribuem.

Salvar-se não parece uma solução viável quando estamos sob a égide do Deus da carnificina.  O melhor é adentrarmos a arena usando nossas armas. Paus, palavras, filmes e crônicas.

                                                                                                                                                                                          Alex Rolim escreve aos sábados

 

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