Se você já viu um documentário, devia assistir A embaixada, de Chris Marker.

Plot: durante um golpe militar, dissidentes se refugiam numa embaixada. Um deles possui uma câmera e filma o correr dos dias.

Dura 20 minutos e você sairá se perguntando como classificar esse filme. Com sorte, a pergunta se estenderá para todos os outros que você já viu.

Lá pelo terceiro ou quarto dia, um novo dissidente chega. Ele tem uma tartaruga. O cameraman comenta o grande efeito que este pequeno acontecimento tem na rotina do grupo. Enquanto foca o animal, ele diz: “Ela tem seus pensamentos de tartaruga e nenhum militar vai fazê-la mudar de ideia.”

Constatar o insondável sem necessariamente querer devassá-lo: eis um dos traços dos filmes de Chris Marker.

Pois hoje, li a noticia de que morreu ontem a última tartaruga Pinta (subespécie Chelonoidis nigra abingdoni) conhecida – chamava-se George. Como não deixou filhotes, automaticamente lamentei a perda cientifica que acompanha sua morte. Mas a tartaruga da embaixada me fez mudar minhas ideias de homem.

É que George ainda tinha potenciais cem anos pela frente. Morreu aos cem (estima-se), quando sua espécie pode atingir o dobro. Morre com George não apenas uma fonte de conhecimento sobre o que pode ter sido a vida de seus congêneres, mas também uma vida possível, uma linha a mais no tecido do universo.

Morre qualquer coisa que estava aqui bem antes de nós e que poderia estar até bem depois. Que muda a dimensão do tempo e do conhecimento. Pois nunca saberemos nada de não-cientifico sobre George. Porque nem a química, a biologia nem a arqueologia são capazes de vasculhar pensamentos de tartaruga. Pensamentos aos quais, desconfio, George era bem apegado.

Diego Damasceno escreve às terças

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