Plinio Apuleyo Mendoza, amigo de García Márquez e autor de um delicioso livro de entrevistas com ele chamado “El olor de la guayaba”, disse publicamente o que há alguns anos se comenta em privado: Gabo está perdendo a memória.

Um conhecido, que no ano passado esteve com o escritor colombiano em um jantar, contou a mesma coisa. Disse que ele tem a saúde debilitada e que lhe custa muito seguir uma conversa. Há anos Gabo não escreve nada e não é visto em eventos públicos.

Apuleyo contou também que o amigo tem dificuldade para reconhece pessoas e lembrar de situações que aconteceram recentemente, mas que guarda intacta a memória do que viu e viveu há 30, 40 anos.

Claro que é triste tudo isso, mas por sorte lhe restam intactas as lembranças do passado. E como disse o próprio em sua autobiografia: A vida não é aquilo que vivemos, senão o que recordamos e como recordamos para contar.

Tenho a impressão de que García Márquez se sente cada vez mais sozinho e deslocado nesse mundo. A maioria dos amigos já se foi, a mudança pela qual militou e sonhou não veio, o tipo de jornalismo que fez já não existe mais.

Refugiar-se no passado é, penso eu, uma maneira de seguir desfrutando da vida. Difícil imaginar um lugar mais adequado para guardar as recordações do que aquela Paris do final dos anos cinquenta. Gabo era pobre e desconhecido, e sonhava em escrever livros inesquecíveis como Cortázar, a quem espreitava com curiosidade e timidez nos cafés.

Ricardo Viel escreve às segundas

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