Não deixarás passar em branco o domingo é meu primeiro mandamento aqui n’O Purgatório. De modo que, em tendo-me faltado tempo nesta semana para produzir material original, recupero neste domingo um trecho de minha correspondência com Eduardo Sarno (com a licença de alguma edição), à guisa de reflexão livre e um tanto apressada acerca de uma leitura da Bíblia:

Recentemente fiz uma leitura atenta do Pentateuco. O Gênesis é, de fato, muito interessante. Pude observar que a grande metáfora do ser humano, na Bíblia, não se centra na figura do “homem” (quero dizer: de Adão, Eva e suas muitas gerações) mas na representação do Senhor (quero dizer: de Jeová).

Iria além: buscar entender o ser humano tentando entender Adão é perda de tempo; o ser humano é Jeová. Sobre isso, resumiria a Bíblia numa frase: “O Homem criou Deus à sua imagem e semelhança.” Para além do contato com o Pensamento, com o Conhecimento, com o Bem e o Mal até então inauditos, o pecado original foi a desobediência à ordem de Jeová. Desobediência a uma regra jamais explicada, senão transmitida sob forma de uma ameaça de excomunicação.

O mundo criado por Jeová era originalmente imperfeito, e o “homem” (=Adão) representado na Bíblia não é mais do que um tampão – e um tampão frouxo – para essa imperfeição. O que acontece é que Jeová parece escolher não reconhecer a imperfeição do mundo por ele criado e responsabiliza por isso o “homem”.

É como se o mundo tivesse uma espécie de “ralo”, e o homem um dia o destapasse. Aí sobe o bafo quente e fedorento que vem de todos os ralos tapados. Mas ora, ralos não existem por acaso, senão para escoar alguma sujeira. E que mundo perfeito produziria sujeira a ponto de necessitar de um ralo?

A bestialidade do homem não está só na fraqueza de Adão ao pecar por causa de sua mulher, Eva (aliás, a Bíblia é de uma misoginia atroz, diga-se de passagem). Está também – e sobretudo, na minha leitura – na ferocidade do próprio Jeová: do pai que ameaça e não explica, do pai que testa os filhos em continuação, com um sadismo que me inspira medo e me ajuda a entender muita coisa que acontece hoje no mundo – organizações sociais, famílias, igrejas etc.

Pois: o ser humano ocidental, nessa história, está representado é na figura do Pai que cria a curiosidade e não a satisfaz com delicadeza e parcimônia, mas, em vez disso, a obstrui e desperta a animalidade do homem-criatura da Bíblia. Pai que depois a pune, sempre com a excomunicação ou com a morte. Mas como esperar civilidade de um ser mal-educado, cara pálida? Procure uma atitude ou frase realmente sábia (quero dizer: que inspire perspicácia e entendimento acima das capacidades de qualquer mortal) de Jeová no Pentateuco. Eu não encontrei.

O caso de Abel e Caim é exemplar. Abel era pastor, Caim, agricultor. Um dia, Deus pede a cada um uma oferta fruto de seu trabalho. Abel leva uma rês, Caim, hortaliças. O que Deus faz? Recebe a oferta de Abel, rejeita a de Caim. Por quê? Procure na Bíblia, meu palpite é que não irá achar. Eu não achei. Caim então – muito justamente – sente raiva do irmão. Raiva essa que, se lermos com perspicácia (basta lembrar de nossa própria infância), é a raiva natural que qualquer criança um dia sente pelo pai, mas que é incapaz de dirigir diretamente a ele (por respeito ou medo ou amor ou tudo isso amalgamado).

A história segue assim: Caim é desterrado e, como se não bastasse, recebe um talho bem grande no meio da cara. Nasce a culpa, esse veneno que replicamos e inoculamos uns nos outros, através dos séculos, até hoje. Mas alguém sabe dizer qual foi o erro que gerou a raiva e o destempero e finalmente o pecado de Caim? Eu não sei. Se Jeová tivesse simplesmente dito: “Olha, Caim, seu trabalho é tão bom quanto o de seu irmão, só que hoje eu estou com vontade de comer carne”, talvez não tivesse havido o fratricídio. E, se mesmo assim Caim tivesse matado o irmão, eu certamente pensaria diferente. Talvez só um “obrigado” bastasse. Mas Jeová, essa sádica e onipotente metáfora do ser humano, não disse nada; não nos deu, até hoje, explicação.

Enfim: é importante observar que a Bíblia – a Torá Hebraica, para sermos mais precisos – cristaliza para o Ocidente um regime simbólico fundado na polêmica, na oposição, na exclusão mútua de elementos que, sem explicação, aparecem como “contraditórios”. Em uma palavra: fundado na Guerra. É uma resposta do homem ao medo ancestral da morte: para escapar de tudo o que é ameaçador (e por isso difícil de explicar), o refúgio é a perfeição da noção de um Éden. Éden que obviamente não pode conviver com a naturalíssima “monstruosidade” humana.

Até hoje – e ainda por muito tempo, imagino – seguimos/seguiremos essa concepção bíblica nas relações mais elementares. Uma mentalidade afeita à polêmica e, no mais das vezes, infantil. O ser humano (ocidental, de modo geral) parece ser ainda, até hoje, ignorante acerca de sua própria monstruosidade.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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