Bonasera … Bonasera … O que eu fiz para você me tratar tão desrespeitosamente?

Esta pergunta, numa das cenas mais antológicas da história do cinema, é o mote inicial para que Don Vito Corleone introduza o espectador no universo do clássico The Godfather. Eu faço parte desta numerosa seita que considera a adaptação de Coppola para película da obra de Mário Puzo uma das maiores realizações artísticas do homem. Tanto que costumo revê-la constantemente (a trilogia) e estou sempre a descobrir um detalhe, um pormenor que passara despercebido. Em cada audiência acho a obra mais perfeita, e ela me revela uma nova faceta que se reflete no cotidiano. Doidice de devoção exacerbada, suponho.

Talvez por isso tenha encarado com certo desdém a celeuma que sucedeu o encontro que selou a aliança entre Lula e Maluf, no quintal da humilde residência do último, para apoiar a candidatura de Haddad à prefeitura de São Paulo. Onde muitos viram a prova cabal do fisiologismo político que assola a República eu vi uma reprodução de gestos, enquadramentos e tirocínio do modus operandi da Família Corleone. Explanarei.

O apoio de Maluf já estava selado. Tecnicamente este apoio não é novidade, pois o seu partido é aliado do PT em muitas governanças. Mas política é, assim como o cinema, acima de tudo mise-en-scene, e o turco sabe que a espetacularização é o que traz o verdadeiro proveito. O acordo precisa ser celebrado e fotografado. Os atores precisam ser enquadrados em plano e foco adequados.

A política no Brasil ainda é extremamente personalista. E Salim Maluf e Luiz Inácio sempre foram figuras antagônicas neste cenário. O ex-prefeito paulistano não perderia oportunidade de trazer o ex-sindicalista para seu plano de enquadramento. Há quem justifique que Lula teria ficado compungido com o encontro, a ponto de ter saído antes do almoço.  É provável que esse sentimento cesse. Afinal, ele já se sente à vontade com Sarney e Collor, e é o hábito que faz o monge.

Ao condicionar o apoio partidário à aparição pública ao lado de Lula, Maluf apropria-se das palavras de Don Vito: “Para quê me tratar desrespeitosamente? Aperte minha mão, somos amigos, somos iguais”. É claro que, como no acordo com Bonasera, isso terá uma contraparte, algo tão comum no jogo político.

Esqueçam a política como o meio para estabelecer mecanismos que permitam a construção coletiva do bem comum. Política consiste em derrotar, esmagar seu oponente, construir uma hegemonia autárquica com seus pares. Vale usar a militância de forma beligerante e métodos vis em troca de preciosos minutos de propaganda. A construção da imagem sobrepõe qualquer projeto ou conceito de governo.

E foi mais preocupada com sua imagem que Erundina desistiu da vice-candidatura – e uma abdicação não havia sido tão comentada desde Pedro I. Afinal, não bastasse o desprestígio de Lula ter ignorado sua cerimônia de adesão à chapa petista, vê-lo oferecer loas públicas a uma figura tão execrável resultaria numa combinação que mancharia a boa estampa que ela ainda goza nos meios públicos.

O vídeo que eternizou aliança Maluf-Lula se encerra de forma cinematográfica. O portão fechando, as perguntas dos repórteres sem resposta, o espocar dos flashes após a sequência de apertos e tapinhas nas costas, remetem a cena final do primeiro filme da Trilogia Godfather. Enquanto Michael recebe as homenagens de seus áulicos como o novo Don, a porta é cerrada excluindo Kay, sua esposa, desse universo, dessa nova fase.

É quando fecham as portas – e portões – que os acordos são cerzirdos.

E nós estaremos do outro lado da tela (porta), e só nos será mostrado o que for conveniente aos que detém a câmera (poder).

Para deixar-se iludir, eu sempre preferirei o cinema.

                                                                                                                                                     Alex Rolim escreve aos sábados

 

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