Só depois de terminar O Apanhador no Campo de Centeio – porque não quis ler muito sobre ele antes – descobri que todo mundo também ficou pensando no quanto Holden Caulfield usa a palavra “phony” para descrever as pessoas. Descobri também que o veredito da multidão – pelo menos a que escreveu na internet sobre o livro – é que Holden, coitado, é phony também.

É uma palavra da qual sempre gostei bastante e nem o Oxford soube me dizer a origem e se há realmente alguma relação com “telephone”, o que seria engraçado. Phony é algo como superficial e hipócrita, mas não no sentido de não fazer o que se diz. Phony é alguém que age como alguém que não é.

Para Holden, a maioria das pessoas das quais ele não gosta muito, ou não gosta nada, ou que o colocam em situações desconfortáveis é phony, de um jeito ou de outro. Na casa dele – que ele imagina em um momento do livro – nenhum hóspede poderá fazer nada que seja phony, tipo escrever roteiros para cinema (Holden acha que cinema é uma das coisas mais phonies que existem).

Ler o livro de J.D. Salinger no trem, no metrô, na rua ou no restaurante do trabalho é mais interessante porque nos momentos em que você é Holden, todo mundo ao seu redor é mesmo phony. Um chefe ou colega que finge com propriedade saber do que está falando, lojas  fast fashion que vendem uma profusão de bijuterias de quinta como se fossem artigos imperdíveis, cartões que trazem milhares de variações de “Keep Calm and Carry On”, cupcakes.

Londres, na ótica de um colega sírio, certamente seria phony de um modo geral, já que apesar de se esforçar para parecer uma grande cidade multicultural nível propaganda da Benetton, é, para ele, a prova do “fracasso do multiculturalismo” na vida real. Eu não sei. Com a ressalva do pouco tempo que tenho de vida real em Londres, tenho achado que ela é muito mais a prova de que o multiculturalismo é teimoso e se impõe como regra social, doa a quem doer.

A britanidade dos britânicos – seus casacos de tweed, oxfords, keep calms, pastas de couro, breakfast teas e muito além disso – é divertida e, em muitos sentidos, admirável. Mas as pessoas que vêm a Londres rapidamente descobrem que vieram para saber como é estar no lugar onde todo o mundo está, como é poder ler seis jornais gratuitos em línguas diferentes no caminho do metrô. Sem multiculturalismo, nem a Londres histórica resistiria, já que em todos os lugares há a marca do embate entre a Inglaterra e o “outro”, desde que ela se propôs a ser a sede de um império como Roma foi do seu. Quem quer que odeie a existência de tantos outros nessa cidade deveria saber que é isso o que a torna especial.

Quando fechava o livro e deixava de ser Holden, pensava nestas coisas e percebia que não tenho tantas certezas quanto ele tinha sobre o que é o phony aceitável e o que é inadmissível. Resenhistas de internet argumentam que ele não tinha lá muita autocrítica e, tentando parecer mais adulto do que qualquer uma de suas ações comprovava, não percebeu que provavelmente não seria hóspede em sua própria casa.

Mas eu discordo. Acho que Holden já estava muito perto de se dar conta de que a gente vai vivendo as nossas pequenas farsas e que talvez o truque seja saber exatamente qual é a sua, vigiá-la de vez em quando, colocá-la na linha e não deixar que ela se torne maior do que você.

Camilla Costa escreve às quintas-feiras.

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