No sábado, antes do almoço, Henrique me mandou um e-mail que me estragou a comida e o dia todo. Tive a sensação de que eu mesmo poderia ter escrito o mesmo correio para ele naquele mesmo dia. Li, reli, re-contra-li a mensagem e não sabia como nem o que dizer. E por continuar sem saber, decidi publicá-la na ilusão de que alguém nos apresente alguma resposta.

Irmão,
Queria mesmo era que você estivesse aqui e pudéssemos tomar umas cervejas, terminar um maço de cigarros, e conversar uma noite inteira. Ando confuso e acho que um daqueles nossos encontros em que terminamos cheios de álcool e saudosismo seria um ótimo remédio.

Tenho dentro de mim uma inquietação e uma angustia um pouco sem causa aparente. Parece que de repente me dei conta de que os anos estão passando e que a maioria dos projetos que eu imaginei não se concretizaram. Pior, os que se concretizaram perderam todo o encanto quando deixaram de ser sonho e viraram realidade.

Lembra de como termina o documentário José e Pilar? Saramago está em uma conferência e lhe perguntam o que lhe falta na vida depois de ter conseguido tanta coisa. Ele responde: tempo. Isso é triste, claro, mas mais triste é o que ele diz depois, sobre a história da viagem do elefante que ele narra no livro. O elefante fez um trajeto absurdo de Lisboa a Viena, salvou vidas, encantou pessoas e no final o que restou foi sua pata, que virou adereço para colocar guarda-chuvas e bengalas. “Aquilo [o recipiente] era uma metáfora da inutilidade da vida. Não conseguimos fazer dela mais do que o pouco que ela é”, diz Saramago. Um homem que viveu 87 anos, que escreveu livros que mudaram a vida de pessoas, que ganhou prêmios, que semeou ideias, dizer isso? Imagina nós, meu velho, o que vamos conseguir fazer das nossas vidas? De que serve? O que fazemos aqui?

A impressão que tenho é que chegamos aqui meio que de penetra, sem saber exatamente o que se celebra (se é que se celebra algo) e quem são os convidados, e no final vamos embora com a mesma sensação de vazio com que chegamos. Com sorte guardamos uns quantos amigos e amores na mala na hora de partir.

Dia desses li que fizeram uma experiência que consistia em vendar algumas pessoas em um descampado e dizer para que elas caminhassem em linha reta. Sabe o que aconteceu? Que todas elas, todas, terminaram andando em círculo. Estamos condenados a tropeçar sempre na mesma pedra? Seria essa a conclusão do tal estudo?

Eu me sinto andando em circulo e com os olhos vendados. Gostei daquilo que você escreveu dia desses, aquela parada do Lorca. Mas se o Eloy Martínez tem razão quando diz que passamos a vida procurando o que já temos isso só prova que não aprendemos nada. Que não somos capazes nem de revisar os bolsos. Na verdade, acho que o dominó que visto (assim como o do Pessoa em Tabacaria) não era para mim, e nem bolso tem. Estou de novo com o português: serei o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta.

Mas, pra terminar, como vamos achar algo se nem sabemos o que estamos procurando?

Não te escrevo pedindo respostas, fique tranquilo. Duvido que as tenhas.

Ah, e não se preocupe comigo não. Escrevo porque estou triste e sinto tua falta, só isso. Se eu estivesse feliz estaria ouvindo música, andando no parque e tomando o sol. A tristeza demora mais, mas igual que a alegria ela passa. E logo voltamos a esse estado intermediário, que nos adormece e nos possibilita enfrentar essa vida que, como diz o Miguel, é curta demais e dolorida demais. E tudo isso pra no final não conseguir fazer dela nada além do pouco que ela é?  

Pelo menos brindemos por nossa amizade.

Fique bem, irmão. A gente vai se falando.

Abraço,

Henrique

Ricardo Viel escreve às segundas

*Henrique autorizou a publicação da mensagem. O único pedido que me fez foi a eliminação de um parágrafo (devidamente excluído por mim).

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