Eu devia ter tirado uma foto daquele senhor, para provar para ao mundo sua existência.

Estava na fila do caixa do supermercado e ele na minha frente. Seguiu-se o diálogo:

– Tem cartão de fidelidade?

– Não.

– Quer fazê-lo?

– Ahn…

– E grátis. O senhor ativa via internet.

– Não uso internet.

[Embasbacamento geral na loja, pois ficou claro que ele falava a verdade.]

E o homem partiu.

Quando uma empresa me diz alguma coisa piscando o olho, eu corro. Desenvolvi: temo me tornar “cliente fidelizado”. Tremo diante da possibilidade de “aproveitar vantagens”. Outro dia a moça do outro lado do balcão falou em “oferta imperdível” e tive uma síncope.

A publicidade dos nossos dias não utiliza a linguagem, ela já fala uma língua.

Outro caso são os softwares chamados de livros digitais. Leia qualquer comentário (publicitário ou jornalístico) sobre esses bichos e certamente você encontrará a expressão “ampliar a experiência de leitura”.

Antes, isso tinha sido feito por gente como Cervantes, Shakespeare, Proust e Joyce; agora, são as empresas que o fazem.

Ou, é claro, não falamos da mesma coisa. Porque o que seria “ampliar a experiência de leitura” nesse caso? O que seria leitura, aí, nessa frase específica?

Vou poupar o leitor de uma definição improvisada. Mas o que penso tanto se aproxima do que escreveu no New York Times a escritora Ann Patchett:

Let me underscore the obvious here: Reading fiction is important. It is a vital means of imagining a life other than our own, which in turn makes us more empathetic beings. Following complex story lines stretches our brains beyond the 140 characters of sound-bite thinking, and staying within the world of a novel gives us the ability to be quiet and alone, two skills that are disappearing faster than the polar icecaps.

Quanto se afasta de tudo o que um computador, com sua interatividade, sons, videos e figuras em movimento, pode oferecer.

Diego Damasceno escreve às terças

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