(Era de se imaginar que aquele sol, aquele céu e aquele parque eram um cenário demasiado perfeito para que nada de ruim acontecesse.)

Agachada, ela acariciava um cachorro e se divertia mais com o afago que o próprio animal. O viu de longe, fez o último carinho no cão, e saiu em sua direção, desviando das crianças que corriam pelo gramado. Deu-lhe um abraço forte e apertou-o com força antes de prender as pernas atrás de suas costas e trazer sua cabeça contra seus seios.

(Era uma brincadeira puramente infantil ou altamente sexual, escolha.)

Ele devolveu a intensidade do abraço, agarrou-a pelas nádegas e começou a caminhar lentamente, levando-a consigo numa alegria tão plena quanto fugaz.

Giraram por um momento e de repente a terra se abriu.

Os dois foram ao solo.

Ela primeiro; um golpe seco contra o chão. Manteve o sorriso, o semblante doce, incompatível com o charco de sangue que começou a se formar ao lado de sua cabeça.

Ele a abraçou e cuidadosamente colocou a mão esquerda em sua nuca. E seus dedos penetraram fundo, se empaparam com o líquido espesso e tocaram algo viscoso. Desesperado, fitou as pessoas ao redor. Gritou por socorro, por um médico, uma ambulância, mas não houve reação. Todos seguiam olhando-os, alguns com um sorriso mórbido. Todos imóveis.

Voltou a mira-la, pediu que não fechasse os olhos, que não dormisse, e assistiu como ela, docemente, morria em seus braços.

Acordou assustado e confuso. Ela dormia tranquila, agarrada ao travesseiro. Aproximou-se e tocou com a mão esquerda sua nunca. Os dedos encontraram os cabelos e a pele, e nada mais. Ela se moveu um pouco, abraçou-o, e seguiu dormindo, sonhando que acariciava um cachorro, alheia ao perigo que corria.

Ricardo Viel escreve às segundas

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