Corria uma tarde comum de jornal outro dia quando alguém na redação alarmou: “Quem diria, o Flamengo. Antigamente, era o grande clube do país. Hoje…”

Reticências. Pesou-me o coração rubro-negro reconhecer que o Flamengo dos últimos tempos bem se define assim: reticências.

Já foi o maior do mundo, ainda é o maior do Brasil, mas esforça-se para tornar a ser apenas o maior do Rio.

É isso: o grande projeto do Flamengo é voltar a ser o maior clube do pedaço, talvez como na década de 30, de 40 quiçá.

A pena é que, ainda que consiga empequenecer, o Flamengo jamais irá lograr tamanha anti-façanha.

Primeiro, porque o Rio naquele tempo era a capital federal, e é evidente que o maior clube do Rio capital federal será sempre maior do que o maior clube do mero Rio.

Depois, porque havia naquele tempo uma fleuma, um certo charme no fazer das coisas, que o marketing do tempo de hoje matou.

Pois pensem vocês que numa edição da Revista do Clube de Regatas do Flamengo de 1939 saiu publicada uma crônica das boas do mestre Rubem Braga. Das boas talvez porque não triscasse no assunto futebol – ao contrário desta croniqueta perna-de-pau aqui, aliás. “Coração de Mãe” é o título, para quem quiser procurar.

Pergunto: que revista de que Flamengo – de que clube brasileiro, arrisco dizer – publicaria hoje uma crônica de Rubem Braga que nada tem a ver com futebol, que dirá com o dito cujo clube? Pois se mal se ocupa de revelar bons jogadores, que dirá de revelar bons cronistas se ocuparia esse Flamengo de hoje.

Esse Flamengo de hoje é só um clube que, incompetente para arranjar os 25-sei-lá-30 milhões que julga merecer de quem se lhe queira estampar a marca na camisa, acha pouco metade disso, e prefere jogar de camisa limpa.

O caso é que não basta jogar de camisa limpa, Flamengo, para voltar a ser o time de camisa limpa que revolucionou o futebol no início dos anos 80. O time de meu pai. O time de Xangai.

De Xangai, o cantor – e não Xangai, a cidade da China.

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Aliás, falar em China, falar em camisa: outro dia pasmei quando um time espanhol, o Sevilla, apareceu na TV com um troço todo em chinês escrito no meio da camisa.

Que diabo queria dizer?

Foram decerto os mil chinos que apanham da polícia por vender cerveza clandestina por un eulo na Plaza Mayor que se uniram para pagar um recado de “tomar por culo, putos de mierda” aos espanhóis – e que agora estarão se divertindo vendo o jogo na TV, tomando cerveza – , pensei.

Mas não: era a publicidade da Jinko Solar, empresa chinesa de energia limpa (seja lá o que isso queira dizer) que bancará o Sevilla até 2014.

O que aliás não deixa de ser um “tomar por culo, putos de mierda” aos espanhóis.

 

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Aliás, falar em China, falar em camisa: outro dia de novo pasmei quando o América, de Natal, apareceu na TV com “Cavaleiros do Forró” escrito no meio da camisa; e me ocorreu que hoje em dia esse negócio de ser artista virou mesmo negócio – e um negócio da China.

Bravo!

É bacana estar vivo para ver a arte deixando de depender de mecenato para virar, ela própria, o mecenas.

O triste é estar vivo para ver a arte, para isso, deixando de ser arte.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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