Estava pensando em escrever uma história (imaginária) sobre uma mulher envelhecida amargando o caritó. Aí fui ler um texto antigo de Rachel de Queiroz na revista O Cruzeiro para me inspirar, mas reparei mesmo é que não podia dizer nada melhor. Vitalinas, o artigo, foi publicado em 1959 e fiz o obséquio de reproduzir uns trechos:

Da Bahia para o Sul, pouca gente saberá o que é vitalina e o que é caritó. Caritó é a pequena prateleira no alto da parede, ou nicho nas casas de taipa, onde as mulheres escondem fora do alcance das crianças, o carretel de linha, o pente, o pedaçõ de fumo, o cachimbo. Vitalina, conforme a popularizou a cantiga, é a solteirona, a môça-velha que se enfeita – bota pó e tira pó – mas não encontra marido. E assim, a vitalina que ficou no caritó é como quem diz que ficou na prateleira, sem uso, esquecida, guardada intacta.

As cidades grandes já hoje quase desconhecem essa relíquia da civilização cristã, que é a solteirona, a donzela profissional. Porque, se hoje como sempre, continuam a exisitir as mulheres que não casam, elas agora vão para tôda a parte, menos para ocaritó. Para as repartições e os escritórios e os balcões de loja, para as bancas de professôra, e até mesmo, Deus que me perdoe, para êsses amôres melancólicos e irregulares com um homem que tem outros compromissos, e que não lhes pode dar senão algumas poucas horas, de espaço a espaço, e assim mesmo fugitivas e escondidas.

De qualquer forma, elas já não se sentem nem são consideradas um refugo, uma excrecência, aquelas a quem ninguém quis e que não têm um lugar seu em parte nenhuma.

Pela província, contudo, é diferente. Na próvíncia os preconceitos ainda são poderosos, ainda mantêm presa a mulher que não tem homem de seu (o “homem de uso”, como se chama às vezes ao marido…) e assim, na província a instituição da titia ainda funciona com bastante esplendor. E o curioso é que raramente são as môças feias, as imprestáveis, as geniosas, que ficam nocaritó. Às vezes elas são bonitas e prendadas, e até mesmo arranjadas, com alguma renda ou propriedade, e contudo o alusivo marido não apareceu. Talvez porque elas se revelaram menos agressivas, ou mais ineptas, ou menos ajudadas da família na caçada matrimonial?

A gente as conhece mocinhas, botões de flor cheios de esperança e de graça adolescente. Que pele, que dentes, que cabelos, que cintura! Por uns anos se deixa de vê-las, e então quase não se as conhece mais – ressequidas ou obesas, azêdas, beatas. Fazendo crochê ou se especializando em outras coisas igualmente inúteis, ressentidas, solitárias, queixando-se de imaginários achaques, e tão semelhantes ao tipo caricatural da solteirona pintado nos livros e nos palcos, que até parece escolheram o modêlo e o copiam com exemplar fidelidade.

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No site Memória Viva há outros textos igualmente maravilhosos publicados na revista, que circulou entre 1928 e 1975.  Apreciem:

Jorge Amado, o entendedor de gente – por José Amádio (26 de março de 1960)
Veja você: um menino nasce como qualquer outro, feioso, chorão, franzino, cabeçudo, as orelhas de abano. Anda, vira, remexe e quando menos se espera é nome internacional com livros traduzidos em 30 diferentes idiomas. Amado, Jorge, baiano, é homem de muitos mares, de muitas colinas e de muitos horizontes. Cidadão do mundo, nascido na zona do cacau, aprendeu a fotografar a terra como coração. Sempre andou com os problemas dessa terra no bôlso. Conhece rostos na multidão. É um homem de massas, intérprete de sentimentos e anseios coletivos. Quem o ensinou a entender gente? Onde aprendeu a pegar um pretinho qualquer, bronco, e tirar dêle braçadas de poesia, jarras de simplicidade? Quem já o leu sabe disso: três linhas e o tipo vive, arfa, palpita, deixa rastro, cheiro e gôsto.
Um escritor.

De tanto comer, Dona Inocência empobreceu toda a família – por Florisbelo Vila-Nova (17 de outubro de 1964)
ACONTECEU de repente, há 16 anos. D. Inocência Colatino Lira, agora com 44 anos, casada, mãe de quatro filhos, sentiu dormência nas mãos e nas pernas, começou a tremer e caiu sem sentidos, com o rosto marcado de manchas roxas. Muitas horas depois voltou a si, sentindo uma vontade incontrolável e insaciável de comer. Hoje pesa mais de 242 quilos (pesava 53) e continua engordando e comendo.

Chico Xavier, o detetive do Além – por David Nasser (12 de agosto de 1944)
Era uma vez um moço ingênuo e feliz, vivendo numa cidadezinha ingênua e feliz, perto de Belo Horizonte. O moço se chamava Francisco Cândido Xavier e não desmentia o nome. A cidadezinha, Pedro Leopoldo, arrastava suas horas de doce paz, entre as missas de domingo e a chegada do trem da capital. Não se sabe como, numa noite ou num dia, Chico se mostrou inquieto e desandou a escrever. Terminando, disse, apenas, à família assustada: – “Não fui eu. Alguém me empurrava a mão”. Desce êsse dia ou essa noite, Chico Xavier perdeu o sossêgo e também o de sua cidade. Turistas chegavam, atraídos pela fama do moço-profeta. Pedro Leopoldo ia crescendo e Chico Xavier ia ficando importante. Nunca mais teve paz. Nunca mais pôde sair pela rua, sem ouvir um pedido de saúde ou uma prece de gratidão. Se ao menos fôsse só isto. Era mais, muito mais. Eram os curiosos do Rio, de São Paulo e de Belo Horizonte, pedindo consultas ou detalhes pelo telefone interurbano. Era a legião de repórteres em busca de novas mensagens. O representante da editôra insistindo por outros livros. Os centros espíritas de todo o país solicitando pormenores. Uma vida infernal, agitada, barulhenta sacudia o pobre rapaz.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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