“Estou muito preocupado, mas como te conheço sei que vencerás todas as dificuldades porque te sobra energia, graça e alegria, como dizemos os flamencos, para parar um trem”. Federico García Lorca escreveu essa mensagem – fragmento da que provavelmente foi sua última carta – quatro dias antes de ser preso e fuzilado pelas tropas franquistas. O destinatário era Juan Ramírez de Luca, com quem o poeta espanhol planejava fugir para o México. Lorca foi morto porque cometeu dois pecados graves; na época de Franco ousou ser republicano e homossexual.

Recentemente a carta de Lorca a Juan tornou-se pública. Cada vez que aparece um material inédito do poeta as circunstâncias de sua morte e o fato de seu corpo nunca ter sido encontrado (como o de outros milhares de espanhóis assassinados durante a Guerra Civil) voltam à tona. Essa é uma história triste e interessante, mas hoje queria mesmo era falar sobre o conteúdo da carta de Lorca e da lição que acho que podemos tirar dela.

Duvido que a grande maioria das pessoas tenha energia, graça e alegria de sobra. Mas creio, isso sim, que todos nós temos em nossas vidas locomotivas que precisam ser freadas.

Se é verdade isso que dizia Tomás Eloy Martínez, que passamos a vida procurando algo que está nos nossos bolsos, então podemos dizer que trazemos conosco o necessário para impedir que as máquinas nos atropelem.

Muitas vezes o que falta é que algum iluminado nos pergunte: “Já procurou no bolso do paletó?” ou nos escreva uma carta cheia de poesia dizendo que somos mais fortes do que imaginamos e que somos capazes de parar trens.

Ricardo Viel escreve às segundas

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