Era com um calor de dar tontura, porque chuva não fazia visita. E era sempre que se precisava de água, sem mais ninguém de ir. Então andava uma distância que não chegava nunca perto, mas uma hora chegava, e aí tinha que encher o balde o mais que pudesse e com cuidado aninhá-lo no pano desbotado que ficava na cabeça.

Voltava com os bracinhos meio abertos de equilibrista, torcendo para não aparecerem os bichos, nem os monstros, principalmente não os fantasmas, e lastimando cada gotinha que caía se por acaso despisava onde não devia. Ia no caminho pensando pensamentos pequenos. Capaz lastimasse que os irmãos homens-protegidos não fossem no seu lugar. Ou sonhasse uma vida de torneiras que funcionassem. Ou imaginasse que se pisasse num espinho e doesse muito o pé, poderia não ir para a escola no outro dia. Talvez.

Quando ia chegando à cidade com o balde praticamente todo cheio e os pés já tão misturados de terra que não sabia quando começava um e acabava outro,  alegre inteira de ter conseguido e agora só na semana que vem, justo nessa hora sentiu a velha se aproximando por trás.  Antes que tivesse tempo de rezar e pedir pelo santo anjo do senhor meu zeloso guardador sentiu o empurrão, a leveza na cabeça, a água que caía, o barulho da lata no chão se misturando à risada purinha de maldade.

Chorou só um pouco antes de voltar tudo de novo.

Tatiana Mendonça escreve às sextas e hoje roubou uma história de sua mãe quando menina.

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