Saudáveis leitores, primeiramente peço desculpas por essa tosse seca que ainda me persegue. A palidez, a voz sem ânimo e a cabeça baixa não são por causa da gripe, e sim sinais do maltrato que sofri e que, se me permitem, passo agora a relatar.

Pois como os mais próximos já sabem, vivo há cinco meses em terras ibéricas. Tempo no qual, por sorte, não havia necessitado socorro médico. Pois chegou o dia em que precisei. Muito atenciosos, me perguntaram qual era meu problema e disseram que um médico viria a minha casa. Adverti que eu podia me deslocar até o hospital. Era uma gripe com um pouco de catarro e uma dor bem chata nas costas, mas nada de vida ou morte. Minha argumentação não os convenceu. Um doutor iria até minha casa e eu a arrumei (como pude) para recebê-lo.

Não demorou nada e vi, pela janela do meu quarto, a chegada do meu socorro. A ambulância estacionou em fila dupla e vi, entre incrédulo e contente, descer dela duas médicas. Pensei que no Brasil, quando acontece de uma ambulância parar frente a um edifício, os vizinhos todos ficam alvoroçados e sabem que em minutos uma maca trará um defunto, um baleado ou uma grávida em trabalho de parto.

Abri a porta às duas doutoras da maneira mais amável possível, mas sem saber se deveria cumprimenta-las com um aperto de mão, um par de beijos ou simplesmente uma saudação marcial. Era de notar na cara de ambas (a mais brava era a dos olhos claros) o incômodo da situação. Não sei o que relataram a elas, mas parecia que esperavam que um familiar, talvez com os olhos lacrimosos, abrisse a porta e as encaminhasse até o leito do enfermo que, com as poucas forças que lhe restava, abriria os olhos e lhes diria: boa tarde, meus anjos. Pois não, quem abriu a porta da casa foi o próprio (enfermo), que de doente não aparentava nada. Caminhava, dizia palavras que tinham algum sentido e até o braço esticava para cumprimenta-las.

Como uma adestradora de cães, a mais brava, com seu sotaque do leste europeu, começou a me dar instruções. A outra médica se colocou de lado, prancheta na mão e cara de desdém.

Pouparei o leitor da descrição da forma como me ordenou que retirasse a camisa, do desprezo como me obrigou a deitar na cama e da forma como simplesmente segurou minha perna esquerda e a dobrou, sem saber que aquele joelho, desde o dia 06 de abril do ano passado, era incapaz de dobrar-se ao 100%. Pois naquele dia, graças ao atendimento que a europeia do leste me fez, o joelho que havia sido operado fazia sete meses voltou a dobrar por completo (não sem dor, há que matizar).

Passados menos de cinco minutos e alguns procedimentos recebi o diagnóstico: não era nada grave. Enfim, pode ser que elas tivessem razão. Eu estava gripado e as dores nas costas eram apenas uma contratura muscular. Conjunção de um banho quente mais rajada de vento frio. Mas do jeito em que a situação se pintou parecia que eu havia mentido, que simulara um mal crônico para receber atenção médica. “É que pensei que essa dor podia ser o pulmão”, argumentei já como o réu que será executado e pede inutilmente clemencia. Foi quando o menosprezo por parte delas por atingiu o nível máximo. “Você teria que ter um pulmão enorme para que doesse onde diz que dói. Seria um caso único na medicina”, disse a carrasca número 1. Momento no qual a carrasca número 2, que até então parecia não ter dentes, sorriu.

Tive ainda que esperar que a dupla de torturadoras psicológicas preenchesse um formulário sobre meu caso. Eu ali, sentado na cama do meu quarto, lamentava que minha doença não fosse grave. Se eu morresse amanha de tanto tossir pelo menos essas duas teriam o diploma de medicina cassado, pensei eu.

Sem olhar-me nos olhos, a médica do sorriso sarcástico me entregou uma cópia da ficha que acabara de preencher e me falou que eu deveria comprar uma pomada para aliviar a dor nas costas. E foi quando veio a bofetada final. “Você tem alguém para te aplicar uma massagem?”. Sim, saudável leitor, ela me perguntou isso. Não, saudável leitor, não era uma pergunta simples que um profissional faz ao paciente. Estava carregada de ironia. Queria ouvir da minha boca que eu não tinha quem me fizesse uma massagem, que eu era um homem solitário e que qualquer tipo de atenção, ainda que fosse a de uma dupla de médicas sem compaixão, me fazia feliz.

Mantive a calma, perguntei pelo nome da pomada e não respondi à provocação. Tratei de acompanha-las até a saída e, educadamente, desejar-lhes um bom dia.

Quando tudo já parecia terminado, me veio a iluminação.

Minha redenção aconteceu aos 47 do segundo tempo, na última bola do jogo. “Por certo, espero não vê-las nunca mais”, disse eu, e com um sorriso no rosto fechei delicadamente a porta de casa.

Ricardo Viel escreve às segundas

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