* A equipe de O Purgatório está de férias até o dia 8 de janeiro. Até lá, republicaremos diariamente uma seleção dos melhores textos de nossos colunistas ao longo de 2011. A todos um bom 2012!

Mesmo sendo uma delas, ainda não consegui entender totalmente porque as pessoas querem aprender alemão. Vou para o curso e conheço pessoas interessadas na cultura alemã, em morar na Alemanha, mas não as vejo prestar especial atenção especialmente na língua e nas suas construções.

Isso faz algum sentido, porque sejamos francos: das línguas ocidentais (as que tentei aprender, é claro) o alemão é a mais ingrata. Ele exige extrema concentração, dedicação e foco, mas demora anos para te ogar um ossinho.

Mas sejamos justos, também. Está longe de ser uma língua de gente grosseira e autoritária, como agrada dizer por aí. A língua alemã tem uma lógica interna intrincada, complexa e, quase sempre, muito bonita. Desde a formação das palavras até o fraseamento das ideias.

Por isso, sem dúvida, ela exige tanto de quem a persegue. As frases não se automatizam facilmente, precisam ser pensadas. Alemão não é língua que se fala melhor bêbado. É preciso estar lúcido para saber usá-la ao seu serviço. É uma queda de braço cansativa, às vezes, falar alemão com minha mente latina.

Tenho essa teoria de que para conseguir ver o mundo pelos olhos de quem fala outra língua é preciso prestar atenção nas palavras que você não tem na sua.

Sempre achei bonito o fato de que em algum lugar do mundo existe um povo para quem o “sentimento puro da beleza” tem um nome ou para quem o “progresso moral e intelectual” de alguém é importante a ponto de ter se transformado em um substantivo, enquanto eu preciso de quatro palavras para descrevê-lo.

Mas prestar atenção nos substantivos não é o suficiente. Os advérbios e os adjetivos também são sempre os mesmos. Se as palavras funcionam como um marca-texto do mundo, que assinala para você o que os nativos daquela língua consideram importante, são os verbos que te dão uma chave para entender o modo como eles percebem a vida.

No meu quarto ano estudando alemão, descobri que o verbo werden não é conjugado no futuro. Um Telecurso 2000 rápido aqui: o futuro em alemão usa o werden como auxiliar, como o inglês usa o will. “Ich werde finden”, por exemplo, significa “Eu vou encontrar”.

Mas o verbo werden não é só auxiliar. Sozinho, ele significa “tornar-se”. “Ich werde alt” é o famoso “Tô ficando velho”.

Werden é um verbo bonito em alemão por diversas razões. Mas essa, que acabo de descobrir, é a principal: ele não é conjugado no futuro. Você até diz que se tornou algo, passado. Mas não diz “Ich werde alguma coisa werden” (“Eu me tornarei alguma coisa”).

A frase “eu me tornarei” fica sempre no presente. Segundo minha professora, porque não é necessário conjugar no futuro um verbo cuja ideia já é de futuro.

“Tornar-se”, em alemão, é também um verbo de movimento. Como tal, ele está sempre acontecendo no momento em que você o enuncia. “Tornar-se” algo quer dizer que você um dia será esse algo, mas ainda não é. É uma mudança presente que carrega em si a ideia de futuro.

Ao contrário do werden,  o verbo “ser” pode ser conjugado no futuro – “Ich werde sein” – lembrando que as mudanças não podem ser jogadas para a frente como prognóstico ou promessa. Você se torna todos os dias aquilo que um dia vai ser.

A língua alemã, essa descarada,  me pegou pelo pé.

Camilla Costa escreve às quintas-feiras

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