* A equipe de O Purgatório está de férias até o dia 8 de janeiro. Até lá, republicaremos diariamente uma seleção dos melhores textos de nossos colunistas ao longo de 2011. A todos um bom 2012!

Como se estivesse na Europa. Foi assim que a diretora de uma grife francesa que deve abrir loja no Brasil resumiu os atrativos de comprar na rua Oscar Freire, em São Paulo.

É uma frase verdadeira e triste. Verdadeira por causa do condicional, “como se”: andar nas ruas de São Paulo não é igual a andar nas da Europa ocidental: aqui, infra-estrutura e segurança vêm de longa data, e ajudaram a moldar o hábito de se apropriar da cidade; no Brasil, aqueles itens praticamente não existem, e estamos cada vez mais fechados em nossos próprios cercos.

Andar, descobrir uma loja, entrar para conhecer, talvez comprar, eis um prazer maior até que o de visitar museus europeus (cheios de gente que passa rápido, só para tirar foto). Mais pelas possíveis lojas do que pelas improváveis descobertas. Já vi uma loja escocesa – do whisky ao kilt – e loja de DVDs para cinéfilos. Loja de comida italiana naturalmente perfumada e loja de quadrinhos antigos, coleções inteiras no plástico.

Leio no jornal que na Oscar Freire o que se vê cada vez mais são tapumes. Uma pena.

Uma pena porque, se mesmo em uma rua vigiada por seguranças engravatados, que fica em um dos bairros mais policiados de São Paulo, e que quase que naturalmente espanta os mais pobres pela ostentação das marcas, se mesmo num ambiente visivelmente fabricado como este, mas ainda ao ar livre, as lojas estão minguando, correndo para os shoppings, é sinal de que a rua não será mais nossa.

Perdemo-las para os postes, o lixo, os buracos na calçada, o cocô de cachorro, para o desprezo dos maus políticos. E sobretudo para a pressa, a pressa desatenta com que passamos por elas, fingindo que elas nunca nos pertenceram.

Diego Damasceno escreve às terças

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