A mulher apareceu na televisão chorando a morte do filho. Para ela era só a repetição da dor. Para os jornais, era a tragédia fazendo aniversário.

Joel era o menino pretinho que aparecia na propaganda do governo dizendo que quando crescesse queria ser mestre de capoeira, como o pai, que de tão sabido conseguia até ensinar os gringos a cantar. Depois, vinha a voz de Gilberto Gil a exaltar a nova Bahia, “crescendo para todos, mais justa e mais igual”.

Como se sabe, Joel não alcançou o sonho, porque nem pôde crescer. Em 21 de novembro de 2010, quando arrumava seu colchão na sala para dormir, morreu com um tiro na cabeça, aos 10 anos.  A polícia fazia uma “operação” no bairro do Nordeste de Amaralina, onde o garoto vivia. A arma que o vitimou pertencia ao mesmo governo que ajudou a propagandear.

Um ano depois, os nove policiais militares acusados do crime ainda não foram julgados.

Queria dizer muitas coisas, mas não encontro o jeito. Fato é que Joel morreu e sua mãe chora. E ficamos todos nós na obrigação de conviver com a vergonha e o desamparo.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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