Ainda não me sinto convencido de que a PM não deva entrar na USP. Por que ela pode circular em toda a cidade e não na universidade?

Há quem diga: a USP é uma “autarquia”. Desculpem, mas não é suficiente. Autarquias têm autonomia economia e administrativa, mas isso não as exclui da fiscalização estatal.

Dizer que a PM “atrapalha a livre circulação de ideias” me parece abstrato, porque não mensurável, e não sei se podemos tomar uma decisão tão concreta apoiados em um argumento tão abstrato e subjetivo. Pois na praia atrapalha também. Ou no shopping. É fato: qualquer um em qualquer lugar se sente intimidado pela presença da PM.

O fato de “a PM ser o instrumento de poder do Estado” não faz dela a causa dos problemas políticos da USP. Não é a ausência da PM que irá retirar a universidade da submissão a interesses políticos e econômicos particulares e indevidos, nem é sua presença que vai acionar essa submissão.

A defesa de uma USP sem PM torna-se ainda mais contraditória quando se fala que os eventos da semana passada estão enquadrados em uma discussão mais ampla, qual seja, sobre segurança e corrupção (referência à gestão de João Rodas, o reitor). Quando se fala, em suma, que proibir policiais de patrulhar a universidade, é uma forma de começar a combater essas questões mais amplas.

Talvez seja mais honesto – com alunos, professores, funcionários da USP, mas também com a sociedade – e produtivo pensar que, mesmo que até aqui a PM tenha ajudado pouco, ela pode, sim, ajudar. Até porque em tese foi criada para isso (assim como em tese a guarda universitária foi criada para guardar a universidade).

Por que a PM não pode trabalhar com a guarda universitária e com a comunidade uspiana?

Por que é defendida uma reforma da guarda universitaria mas não uma reforma da PM? Por que não propostas e protestos para reviver, limpar, reimaginar a polícia para cuidar do campus e da cidade toda?

Não acho que a USP tenha o direito de se eximir da tal discussão mais ampla. Não vale querer citar essa amplidão apenas em favor de certas propostas. A USP tem que participar por duas razões iniciais: 1) faz parte do problema, enquanto vítima, enquanto agente, porque integrante da sociedade; e 2) porque deve respostas não pontuais à sociedade: boa formação, pesquisa, ensino, soluções, debates, protagonismo; é uma universidade, afinal.

Por que, ao inves de discutir o todo a partir de si mesma, a USP quer chutar a PM para fora de seus muros e para fora da discussão sobre sua insegurança?

Sao Paulo é insegura. É irresponsável por parte da universidade, centro suposto de saber, conhecimento e pensamento, se omitir de propor soluçoes e de se engajar diretamente no problema.

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Onde esta escrito USP, é possivel ler UFBA, UFAM, UFRGS.

Diego Damasceno escreve às sextas

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