por Diego Damasceno

Caetano Veloso deu entrevista ao repórter Julio Maria, de O Estado de S. Paulo. Este fez-lhe uma pergunta sobre o Ministério da Cultura, que embutia uma decepção crítica em relação à passagem de Ana de Holanda. Caetano respondeu que não espera muito do MinC. Disse que o Minc é “um negocinho”, e argumentou que ele tem orçamento pequeno demais. O repórter então retorquiu: “Mas não é lá que deve estar a solução para os dilemas da Cultura de um País?”

Ainda que aceite que a pergunta tenha motivação subjetiva, acho que ela se insere numa certa categoria de perguntas protocolares, e é ruim que o jornalismo esteja cheio delas.

À primeira vista, perguntas dessa categoria são razoáveis, extremamente aceitáveis, consensuais, derivadas do bom senso. São também obrigatórias para o repórter, ele deve fazê-las e o editor nem precisa ordenar – enquanto jornalista, é óbvio para ele que algumas dessa categoria devam constar de sua lista de perguntas. A profissão ensina.

Daí que “O Ministério da Cultura é responsável pela solução dos dilemas da Cultura de um país” soe bem. Mas será mesmo?

Lendo a entrevista, parece-me que o repórter quer provocar o entrevistado usando argumentos que não são seus. Recorrer ao senso comum, nesse caso, tem duas vantagens: 1) dar força ao argumento; 2) eximir-se de ter responsabilidade sobre o que se afirma.

Em outras palavras, o repórter acua o entrevistado portando como arma uma suposta razão coletiva. Ele é apenas o mensageiro da “consciência pública”.

Respondendo, então, à pergunta que fiz: eu acho que não. A razão principal quem dá é o próprio entrevistado, uma das personalidades mais importantes da cultura brasileira no século 20.

Fora isso, é arcaico atribuir a principal responsabilidade da cultura a um ministério. Hoje somos informados o suficiente para saber da importância da atividade privada e da atividade civil não lucrativa. “Terceiro setor” já é uma expressão antiga.

É também perigoso: deve um Ministério decidir tudo?

E é, ainda, cômodo: concentramos esforços em criticar o ministério e em esperar dele que resolva nossos problemas culturais.

Como leitor, espero que um jornal vá além de minhas próprias reflexões.  Espero que ele me ensine, amplie meu ponto de vista, e não o reduza.

“Protocolar”, nesse sentido que sugeri, significa “comprometido com uma ordem social estabelecida, com um pensamento estagnado”. É menos importante saber se o repórter apelou para esse discurso porque ficou sem munição ou se é o jornal que o orientou a seguir por esse caminho do que descobrir a razão por que abunda nos jornais material de fachada, pseudo reflexões, perguntas enganosamente inteligentes, posições aparentemente críticas, profissionais supostamente preparados.

Essa entrevista me parece um exemplo do exercício inútil que é tentar equilibrar grandezas incomunicáveis: jornalismo e marketing. A parte jornalismo vem da pessoa entrevistada. A parte marketing, da “eficiência” que quer se vender na entrevista, através de supostos atributos do repórter, como ser “crítico”, “informado”, “debater com o entrevistado”… e por aí vai.

Diego Damasceno escreve às terças

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